quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Adeus nosso de cada dia



Vida. Conjunto que no todo é despedida, um imenso adeus subdividido em bilhões de despedidas menores, um tipo de mosaico de tchaus.

Já notou o quanto superestimamos os pensamentos?

Parece até que são tudo, algo muito superior e bla bla bla. Mas não passam de linguagem, representação, flauta, pena, pincel, martelo etc. Não nego que sejam sofisticados , mas não são o que mais importa. Vale o que está por trás de cada idéia, do que a levou ao nascimento, o que dela se fez, o que aconteceu a partir o que se fez. Idéia sem movimento é um livro fechado, guardado num baú lacrado e enterrado na lua.

Movimento. O fechar que é também um abrir de portas novas. Novas imagens, pessoas, situações, aventuras, deleites, experiências, saberes, decepções, morrer e renascer... Tudo isso só freiado quando de encontro ao muro do que ficou para trás.

Os velhos confortos do ninho anterior, a dureza aquecida e a proteção que não protege de si mesmo, o doce sabor da casca que sempre foi tão boa de se lamber. Disso só lembrança, glorificada ou não, volta não há.

Acessar as velhas vantagens não há como. Mas esse muro tem sua utilidade. É possível subir sobre ele e lá do alto observar ambos os lados. Futuro e passado. Ontem e hoje. É possível levar mais gente pra lá também, sentir o vento no rosto que só a altura avantajada do muro nos permite sentir.

É possível avistar até mesmo o céu estrelado, sem precisar olhar para o alto. Basta vê-lo refletido no espelho das águas, que mesmo turbulentas refletem...

Quando se pega jacarés no mar estrelado, é interessante que não precisamos nos esforçar muito, sobretudo quando a onda é grande demais pra termos pleno controle de seus desdobramentos. Então o jeito é dar um leve impulso adiante, abrir bem os olhos para não perder nem o mais mísero instante piscado e então deixar-se levar, na velocidade, na altura, na fluidêz sem futuro.

Também é possível furar a onda, quando esta é grande demais, mas é sem graça e mais apropriado á frangos dágua. Melhor mesmo é pegar carona e viajar em sua crista.

Talvez algum dia outra apareça, ainda maior ou menor, sei lá. Então voltamos para o mar e nos preparamos para mais um impulso.

Nunca uma onda é igual a outra. Todas começam e terminam e começam e...

Jamais param de morrer e nascer e...

Eu?
Parar de nascer (e morrer e...)?

Nem!

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Lughnasadh



Teologia sem mistério


A igreja inventou o verbo excomungar

no dia em que o Diabo inventou o padre

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Expresso no inferno

Meditação ás pressas
Currículo medíocre
Cachaça carioca
Vassoura Pop

Pá com cisco
Tabaco fedido
Niilismo exposto

Alma
propositadamente
mal vestida

Homem bomba
inrustido

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

E que venha a aurora

Desfecho

Fecho as imagens de antes e o esqueminha de repeti-las
num padrão idiota e batido

Fecho a porta na cara do homem que tanto se orgulha de ser homem
e se esquece do orgulho de ser mulher, criança, idoso, animal, vegetal, mineral, mantra
Que morra engasgado com seu próprio pinto enquanto assobia sua baboseira hipócrita

Fecho o rombo na fachada do engravatado, no buraco entre o seu sorriso e seu papo adocicado, fecho minha mão em torno da sua e aperto com força, só pra ter certeza se tamanho nada
é capaz de alguma densidade

Fecho a boca e a vontade de falar e escrever e viver engarrafado
pra ser então derramado garganta abaixo, mais uma vez pra dentro
mais uma vez engarrafado em mim

Fecho essa baboseira que você já leu e que escrevi, fecho essa tela, fecho essa noite
dentro deste dia, fecho este ziper aberto e sem sentido, este olho fundo
e também o outro

Fecho esta morte dentro desta vida, fecho a cortina de silêncio, o desespero chovido
Fecho o desejo de morrer
a me desejar

Fecho a porta da noite anterior