Mostrando postagens com marcador textos pre-apocalipticos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador textos pre-apocalipticos. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Máquina do Tempo


"Se acaso não revolvo ilusões no pensamento, o oráculo da Deusa é justo, é pio, não nos ordena o mal, não quer um crime. A grande mãe, que ouviste, a mãe de todos é a Terra; a meu ver são os seus ossos as pedras, e essas diz, que ao chão lancemos."

                                                                                                              As Metamorfoses - Ovídio



   Antigamente, atribuíamos um valor diferente do que hoje com os objetos de arte. Existe uma diferença  financeira. Antes eu precisava gastar uma fortuna para comprar livros, discos, quadrinhos, filmes. Passava o ano sonhando com determinado objeto estético de desejo, juntando dinheiro para comprar e adiando infinitamente para frente. Até que veio a internet.

   Depois da internet as coisas foram facilitadas maravilhosamente. Hoje em dia posso até comprar um cd, filme, quadrinho (livros eu compro sempre mesmo pois detesto ler na tela), mas de um modo geral absorvo a maior parte antes, pela internet, só decidindo depois se vale mesmo a pena investir dinheiro ou não. Acredito que isto esteja nos tornando cidadãos cada vez mais exigentes quanto ao que se consome do multiverso cultural. Ou ao menos assim deveria ser.
   
   Acaba que o valor das obras agora tem algo a ver com tempo e vida. Ou melhor, tempo de vida. Temos acesso a tanta coisa, mas tanta coisa, que não dá pra mastigar tanta informação. Então vamos engolindo, nos emporcalhando de cultura. Pouco ou nada degustando, muitas vezes. O antídoto: Escolher direito o que se consome na internet, ainda que não se vá gastar dinheiro com tal bem virtual. Eis o único modo de gastarmos nosso precioso tempo, que não é dinheiro como costumavam dizer, mas vida rolando, acontecendo, ladeira abaixo... Aproveitemos, ora!

   Existem muitos critérios para se apreciar objetos de arte multimidiáticos. Nem sempre se trata de critérios estéticos, embora seja bom. Hoje pretendo tratar de uma das minhas motivações na hora de escolher (e mesmo gastar dinheiro) com qual obra gastarei aqueles preciosos momentos de existência: Tempo. 
 
   Isso mesmo. É possível viajar no tempo. De uma maneira completamente abstrata, intelectual, emocional, mas é melhor do que nada. E dependendo da obra pode-se ir longe. Para ir ao passado por exemplo. Ás vezes fico pensando em como estaríamos todos se estivéssemos vivendo nos anos 50. Então escuto um disco, vejo um filme, leio um livro escrito na época, de forma a mergulhar naquela outra fase da história, degustando-a, sentindo seu aroma, sua deliciosa diferença em relação à época em que vivemos.



   Dentre as minhas predileções de viagem ao passado (não é mistério para quem passa alguns minutos clicando em meu blog), estão as jornadas ao mais distante passado, no mundo antigo. Me delicio com mitologia grega, com Platão, Heráclito, Ovídio, O Livro dos Mortos Egípcio, Édipo Rei, Mil e uma noites, A Epopéia de Gilgamesh etc. Sei que o jargão é difícil, quase como se houvesse um código impenetrável, uma senha para se acessar um pouco do sabor daqueles tempos. É meio fetichista, eu sei, mas o prazer é tanto que compensa cada uma das minhas conferidas diárias de dicionário (esses sim, muito mais fáceis de se conferir pelo computador do que em livros de papel, recomendo o Houaiss 3.0). Após decifrar as palavras obscuras, aí é só retomar o texto do início e mergulhar fundo, rumo a outro tempo, outro mundo... 

   Pode-se também viajar para o futuro. Para tanto basta ficar de olho no que está além de nosso tempo no mundo das artes. Geralmente são coisas não muito populares (mas estarão no futuro, distante ou não, pode apostar). No cinema, procure os filmes considerados "de arte". Pode ser que não os absorva com facilidade no início (assim como as coisas ultra antigas), mas não desista, através da persistência (e talvez um pouco de pesquisa) dá para encarar, e como sendo uma grande aventura para qual se exige preparo e não como meros momentos de entretenimento burro com o qual estará torrando sua existência. 



   Recomendo um que vi essa semana: "Um Homem Sério", o mais novo dos irmãos Cohen, com seu peculiar senso de humor, sua direção criativa e sensacional, e o melhor: seus finais inusitados. O faço por lembrar de quando não gostava deles, nos primeiros a que tive acesso. Mas algo me movia a ver outras obras desses sujeitos, o que acabou me levando a compreende-los melhor e mesmo a ama-los em alguns momentos geniais. Já ouvi muita gente reclamando deles (e de seus finais de filme), mas a estes peço que reflitam: Por que tais finais lhes são tão incômodos? Minha resposta particular é essa: Estamos viciados nos finais de sempre, nas estruturas de sempre. Ao tentar nos apresentar um final inusitado, eles dão um passo adiante, para fora do ciclo entediante, para além de nossa, muitas vezes repetitiva e massante, pós-modernidade.

   Citei os filmes de arte só como exemplo. Em todos os campos da cultura é possível achar esses portais para o futuro. Na literatura então, tem alguns fantásticos! Recomendo: "Contos de Maldoror" de Lautreamont e(ou) "Grandes Sertões Veredas" do Guimarães Rosa, lembrando que não se tratam de livros futuristas pelo tema, e nem mesmo foram escritos agora, mas pela estética da linguagem a transbordar para fora do lugar comum.


   Lembre-se disso: Arte não serve só para ser apreciada pela sua beleza, sua inovação ou pelos milhões de dólares que se gasta para produzi-la (ou quem sabe adquiri-la), mas também, e muitas vezes principalmente, para viajarmos no tempo, seja para o passado, seja para o futuro. O presente já se encontra em toda parte...




quarta-feira, 17 de março de 2010

Taticas de sobrevivência para reinar sobre o caos reinante - parte 4




"Quando as águas doces e as salgadas estavam juntas, misturadas,
Os juncos não estavam trançados, ou galhos sujavam as águas,
quando os deuses não tinham nome, natureza ou futuro, então a partir de Apsu e Tiamat, nas águas dele e dela, foram criados os deuses, e para dentro das águas precipitou-se a terra"

Enuma Elish - Mito babilônico da criação


Essa coisa do pacto ficcional. Para quem não sabe, funciona assim: Fulano se senta ao lado de Ciclano para assistirem a um filme de terror. Fulano para para comentar o tempo todo sobre o quão o filme é horrível, que aquilo tudo não é capaz de assusta-lo. Já Ciclano mal para piscar de tão absorto nas imagens, no enredo, na trilha sonora. Ambos sabem que se trata de uma mentira que se move estampada na tela. A diferença é que o primeiro não consegue levar a sério, o que faz com que o filme nem chegue perto de diverti-lo, enquanto que o segundo finge o suficiente acreditar naquilo que vê ao ponto de chegar a sentir medo e entreter-se com o que sente. O elemento que permite que alguém adentre o mundo da imaginação é justamente esse pacto, um acordo silencioso entre o leitor e o texto, o telespectador e a tela. Algo que se aplica a todas as formas de mídia.

Mas o que implica tal conhecimento? Para quem, conscientemente ou não, tem alguma noção deste pacto, a leitura de qualquer mídia irá adquirir outros parâmetros, muito mais elaborados, posto que o leitor coloca a imaginação para ajudar as idéias que ele absorve a ganharem forma. Isso permite voôs mentais muito mais longos e precisos. Quem não domina esse conceito de forma alguma, fica aprisionado pelos sentidos e por sua noção de realidade, fincando tão fundo os pés no chão que difícilmente conseguirá uma flutuadinha sequer.


Algumas pessoas optam por propositadamente evitarem o pacto ficcional, outras se especializam nele a tal ponto que mesmo uma história em quadrinhos insignificante poderia transporta-lo para outro planeta. Os primeiros o fazem por acharem perigoso tirar os pés do chão, limitando-se eternamente por uma gravidade a que se impoem, já os entusiastas do pacto muitas vezes se esquecem de pousar quando deveriam. Em ambos os extremos, como provavelmente em todo e qualquer extremo, o equívoco essencial: O esquecimento de que se vive em dois mundos e não em um. Pôr os pés no chão é necessário e também bom, mas saltar para o mundo das idéias não é apenas bom, é também necessário.

Tudo bem que alguns se especializem. Mas nesse caso é melhor que, como irmãos de humanidade que somos, nos ajudemos com isso. Quem conhece o pacto, por favor ensine para quem não conhece, pois deve ser triste viver sem saber ser possível voar para outros mundos. Já quem muito bem conhece as leis do chão, faça um favor de oferecer âncoras para os que tanto temem a bruta beleza da realidade. Dessa forma todos ganham. Então a questão que fica é: Como se ensinar tais conceitos?

Sugiro aos que tem asas, que tragam de longe alguns livros para quem ainda não as desenvolveu suficientemente, pois é na prática, no exercício imaginativo, só assim podem fazê-las crescer. Já quem tem raízes... Não tenho como falar por esses... Só sei que é confortável pousar em seus galhos, saborear a refrescante sombra de sua companhia, compartilhar dessa firmeza que me falta... 



segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Taticas de sobrevivência para reinar sobre o caos reinante - parte 3



“O real da vida se dá, nem no princípio e nem no final. Ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”


João Guimarães Rosa


O Caldeirão é um dos principais objetos dos cultos dos antigos pagãos por ser considerado o útero divino da Grande Mãe, onde ocorria a gestação de seus encantamentos, sendo também um importante símbolo de fertilidade. Diz a lenda que os famosos bardos celtas, para serem iniciados, deveriam sair em uma perigosa busca pelo Caldeirão de Cerridwen e só mesmo tomando um pouco de seu conteúdo estariam aptos. Alguns acreditam ser esta uma das lendas que poderiam ter originado a busca pelo Graal.


Escrever é um tipo de caçada pelo sagrada caldeirão. Ficamos o tempo todo á espreita, de caneta em punho, papéis de fácil acesso e livros espalhados ao redor, como armadilhas. Ter essa disposição nos dias de hoje é artigo de uma raridade tamanha, que há quem não acredite nem vendo com os próprios olhos. É um contexto difícil mesmo. Para desanimar, melhor jogar tintas coloridas sobre a jaula da realidade, quem sabe dar um tom de lenda à coisa toda, pra ver se mudando nossa forma de encarar os fatos, muda também nossa postura e consequentemente aquilo que produzimos, abrindo bolsos de ar para que respire a criatividade, ao menos por alguns instantes.


Sem tempo para nada, pessoas honestas e trabalhadoras não podem dispor de oficinas da alma. É quase questão de sobrevivência optar pela alegria vazia que se contrapõe à densidades maiores, das que ousam tristezas. Por isso ninguém quer ver filmes pra pensar, ler pra pensar, viver pra pensar. Não-pensar tornou-se um tipo de bandeira, um “hábito saudável” que diferencia os normais dos estranhos, algo que se pode comprovar com um breve passar de olhos pelas estatísticas do IBGE ou pelas conversas das pessoas nas esquinas do cotidiano . Essa normalidade nos é martelada pela mídia, nos mesmos moldes da hipnose clássica, por meio de repetições e palavras gatilho. Isso, mais as atitudes que advém disso ou simplesmente acompanham tal tendência, acabam por fixar na cultura, com ainda mais ênfase, a mentalidade do: trabalhe, compre, morra.


Crescemos cerceados por tais regras e ao as apoiarmos, nos tornamos cúmplices da banalidade em que damos forma nossas vidas. Enfrentar isso só é possível por aquilo que chamo de “trilha do sublime”, ou seja, optar não mais tanto pelo que for mais fácil, mastigável, óbvio, comum, divertido e simplório, coisas que nosso mundo tem de sobra, mas, a partir de agora, dar prioridade ao desafiador, ao poético, ao esquisito, ao complexo, sem mais nos limitarmos pelo rótulo da diversão, pois o inverso do não-pensar é o sublimar. Sem sublimar não se vê nada além de paredes brancas e preguiça sem cor.


Nos tempos antigos, acredito que o bardo buscava incessantemente por isso, pela inspiração contida no mágico caldeirão. Tinham tão pouco tempo como nós agora, mas não por viverem num mundo de correria e múltiplas atividades e compromissos, mas por ser baixíssima a média de vida naquela era. Hoje, com a média de vida alta, são poucos os que encontram alguma pista ou sequer se esforçam em continuar a busca. Simplesmente não sobra tempo, e não nos abrimos o suficiente para novas perspect ivas, de modo que perdemos o caldeirão mesmo quando nos encontramos a cozinhar dentro dele.


A mídia não daria seu aval ante a possibilidade sublimar, pois o comércio não apoiaria um público pensante (e consequentemente menos consumista), logo o senso comum (que se apóia na mídia e a alimenta) também não sería favorável a esse tipo de salto paradigmático. Some-se a isso a falta de tempo e o cansaço nascidos da necessidade de se ter empregos, e então se obtém essa impossibilidade de mudar. Um destino vazio e sem legado. Um planeta de burrices interligadas, numa imensa teia de ausências. Infelizmente tudo o que se pode fazer é mudar a si mesmo, salvar-se do vazio generalizado, aumentando, ainda que de forma indireta, o gueto sublime. Se influenciaremos ou não, isso não vem ao caso, o que importa é esse virutoso egoismo, sem o qual nos curvaríamos ao já consolidado apocalipse do senso comum.


Tal busca é nobre e sobre os que nela investem paira aura de heroismo. Não se trata de missão que dependa da aprovação alheia, mas de tarefa solitária. E que fique claro: Aquele que encontra o caldeirão tem por obrigação escondê-lo novamente em suas obras (não importa de que natureza), deixando-o para trás para, só então, poder continuar a procura-lo em outras partes, atravessando passagens, armadilhas, portais e guardiões, pois importante para o bardo de hoje continua sendo o mesmo que valia para o de ontem:


Vale mais a travessia que o resto.



quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Twitter - leveza ou ausência?


"Finalmente recebi a caixa c todos discos dos Beatles remasterizados! Cabulososhnizzle! Agora falta a c os discos em mono..."

um twitt do Marcos Mion


O Twitter é mesmo um fenômeno. O mundo inteiro fala dele. A identificação sustentada entre seus usuários e o novo serviço virtual foi imediata, sendo que vemos seus scraps por toda mídia. Revistas, jornais, programas de tv, no boca-a-boca diário. No Brasil o impacto só não foi ainda maior por não termos uma ampla inclusão digital a exemplo de países como Estados Unidos, Japão, Alemanha etc, onde deve estar provocando uma verdadeira histeria. Mas por que tudo isso?


Até pouco tempo atrás os sites de relacionamento se pautavam por uma variada gama de gadgets, isto é, espaço para videos, músicas, textos, fotos e assim por diante. O que antes cativava era a fartura de recursos, o que foi sendo aos poucos diluído em categorias, tais como sites de relacionamento: musicais, voltados para quadrinhos, para animais, para filmes e até mesmo para quem já morreu. Essa festa toda acabou dando origem ao Twitter.


Diferente de seus irmãos, o Twitter não aparenta se prezar pelo excesso, mas pelo minimalismo. Tudo começa com uma pergunta: “O que você está fazendo?”. O usuário tem um espaço para posts de até 140 caracteres. Lembrei na hora dos Haikais e sua leveza de expressão, e foi pensando nisso que já fui logo correndo fazer o meu. Os amigos de Twitter são seguidores e estes ficam observando o que você escreve de vêz, assim como fazemos o mesmo com aqueles que seguimos. O formato simplificado permite que pessoas mandem seus twitts (sei lá se é assim que se escreve) pelo celular, msn etc, o que facilita a postagem com uma certa frequência. Foi só um pouco depois que comecei a perceber o quanto o Twitter é na verdade superestimado. Ele não é como é em nome de um conceito de leveza, e o que eu chamei minimalismo na verdade tem outro nome: preguiça.


Na correria dos dias pós-modernos, as pessoas estão super atarefadas. Entre videos, músicas, quadrinhos, pesquisas corriqueiras, jornais virtuais, e-mails, e-books, games e sites de relacionamento, acabam optando pelo que for mais fácil. Entre o filme elaborado e o thriller ultra-dinâmico, optará por qual, geralmente, o moderno sujeito high tech, atarefado e ofegante, da primeira década do novo século? Entre um livro denso e um que lhe faça dar pequenas risadas, optará pelas risadinhas ou pelo terremoto que colocaria em risco sua letargia hype?


O Twitter, portanto, é um misto de sintoma e ferida de nosso tempo, uma vez que ele não apenas nos dá espaço para manifestar-nos mas nos obriga a um limite dentro de nosso já tão limitado paradigma, optando assim não por combater a preguiça generalizada mas por adequar-se a ela. Ouso dizer que o Twitteiro de carteirinha, muito provavelmente, é uma pessoa de pensamentos superficiais. Não estou falando daqueles que o usam de maneira estritamente prática, como padeiros que anunciam a hora do pão quentinho ou amigos combinando o melhor agite da noite, mas dos que nele mergulham, levando a sério a ponto de raríssimas vêzes ter algum ânimo para ler ou escrever mais de 140 caracteres, dentro ou fora do Twitter.


A correria de nosso mundo apenas lhe confere mais e mais força, uma vez que é de fato funcional e às falhas do hoje se adequa ao invés de tentar resolve-las. O problema fundamental, portanto, não é o excesso de informação simplesmente mas a nossa cada vez mais crescente incapacidade de parar para refletir sobre o que vamos aprendendo. O cérebro literalmente joga a maior parte na lixeira.


Nos tornamos pessoas cada vez mais superficiais. Já que tal perfil não desagrada a publicidade, a mídia parece optar por apoiar tudo que o sustente. O Twitter é um desses sustentáculos. Uma ferramenta interessante, sem dúvida, mas que no fim das contas reforça essa leviandade geral, nos fazendo engoli-la como sendo o arroz com feijão do senso comum. Começamos a aplaudi-lo cada vez mais ruidosamente, a mídia toda parece estar de pé, também a ovaciona-lo, e cada vez menos nos lembramos do porquê.


Se eu fosse um entusiasta do Twitter, tentaria minar o processo, ora usando-o para marcar eventos, ora escrevendo densidades concentradas no tal espaço de 140 caracteres. Mas como não sou empolgado com ele, prefiro mesmo me aventurar a escrever haikais, ou então concentrar-me no bom e velho blog, onde posso escrever quantas letras quiser, do jeito que considerar melhor e só para aqueles que ainda conseguem suplantar a preguiça e a pressa generalizadas. A estes a promessa do pote de ouro ao fim do arco-íris talvez não se concretize, mas a probabilidade é de longe muito maior.


Já pra turma do Twitter, lhes deixo um dos twitts mais famosos do mês de outubro, tentem refletir sobre isso pois se tantos o seguiram, talvez eu esteja caducando e isso seja mesmo, de alguma maneira oculta, bem profundo:



“Ai, que sonooo! Também... Depois dessa feijoada... (Recuperei todas as calorias q gastei na malhação de hoje! Hehehe... Assim não dá!)


um twitt da Sandy



Se bem que até tem uma vantagem em ler merdas como essa: Dá vontade de ler um bom livro pra compensar essa pungente ausência de qualquer coisa.





quarta-feira, 5 de março de 2008

Taticas de sobrevivência para reinar sobre o caos reinante - parte 1


“Basta apenas um nada para que se produza a centelha”

Herman Hesse – O Lobo da Estepe

Antigamente, mas nem tanto assim, as pessoas eram mais centradas. Os estímulos eram em menor número do que agora o são. O escritor de ontem olhava para o mar, o céu, as paredes, as pessoas, outros livros. Hoje quem escreve vive cercado por televisão, Internet, celular, vídeo game, jornais, revistas etc. Acaba não lhe sobrando muito tempo para olhar, como faziam seus antecessores de outrora, coisas como o mar, o céu, as paredes e as pessoas, quanto menos para livros.


Agora pensemos na diferença entre essas mentes tão distanciadas cronologicamente. O antigo escritor pensava em termos de experiência e suas idéias nasciam justamente de intervalos de vazio entre um e outro pensamento pedindo para ser derramado sobre o papel. O novo escritor pensa em termos de informação, sua mente está abarrotada de textos sobrepostos, de modo que nasce sua escrita a partir de milhares de interligações, colagens intermináveis onde não se reconhece onde começam e onde terminam os textos ali montados.


Se aquele texto de ontem era nascido de um foco mais centrado, que tipo de textos pariremos hoje, tão soterrados de estímulos descentradores?


Basta compararmos os autores e veremos que antes havia uma qualidade que a cada dia parece mais difícil de ser atingida ou superada. Não é só a falta de tempo para se dedicar a uma determinada idéia, mas também a correria, um senso de pressa que aos poucos vai se tornando automático em nossas vidas, sem que o percebamos, muitas vezes. Na pressa o pensamento não se demora, não se permite o aprofundar, centrar-se enfim. Conseqüentemente o texto de hoje nasce correndo, é lido enquanto corremos, é pensado na correria e provavelmente será esquecido em poucos minutos.





Há quem pense em fugir de tudo isso, dando as costas à realidade e se isolando em sua torre, ou caverna ou o que seja, desligando na marra todas essas distrações. Talvez até funcione, só não sei como esse sujeito hipotético poderia sobreviver. Já outros não se podem dar a um luxo desse tamanho, então precisam se adaptar, aprendendo e desenvolvendo estratégias para ao menos tentar usar tudo isso ao seu favor e, quem sabe, não consiga assim ao menos um textinho um pouco menos superficial do que todos os demais? Opto pela segunda opção pois quero sobreviver e não por desprezar os que escolham a primeira, muito pelo contrário.


E então, quais têm sido minhas táticas para lidar com esse dilema e quem sabe chegar perto de responder a questão anterior? Sei que isso não é tarefa de um ensaio só, mas citarei pelo menos duas neste capítulo e espero que minha mente (ou quem sabe a sua, leitor?) nos presenteie com mais delas em um texto posterior.




1)Raw Power: Em primeiro lugar algo que já até citei no meu ensaio sobre os textos pré-apocalípticos. Uma empolgação desesperada que ignora todo tipo de formalidade que impeça o escrever. Os riscos de se produzir uma escrita horrível a partir disso são grandes, eu sei, mas por outro lado isso nos estimula a aprender através da prática pura mais que por critérios literários sisudos. Ainda por cima nos arriscamos a produzir um ou outro texto legal pelo caminho. Não pretendo ficar me repetindo sobre o quanto o formato blog é perfeito para esse tipo de prática, pois acho que já está claro.


2)Transe xamânico: Tenho pensado no excesso de estímulos, em como usá-los ao invés de continuar a ser usado por eles. De imediato vou logo pensando nos xamãs e em suas técnicas para falar com os Deuses. O princípio era o mesmo. Eles pintavam seus corpos, tocavam tambores, dançavam até cair, tinham alucinações visuais após ingerir substâncias psicotrópicas. Enfim, promoviam um excesso de estímulos que lhes desnorteasse todos os sentidos. No auge desse tipo de prática mágica há uma pausa, um vácuo, como o olho do furacão. É bem aqui, nesse ponto, que os xamãs tinham suas visões e literalmente falavam com seus Deuses.


Não é tão simples quanto parece. O excesso de informações com que todos os nossos sentidos são bombardeados diariamente não faz da Terra um planeta povoado por multidões de xamãs. Na verdade o processo é mais perverso do que se pode imaginar. O fato é que essa noção da “consciência mágica” já foi absorvida pelo racionalismo moderno faz tempo e tem sido utilizada para voltar essa mesma “magia” contra as massas, mantendo todos em um constante estado de torpor mágico, de delírio apressado, sem nunca permitir um aprofundamento que não seja voltado ao consumismo e ao fetichismo da mercadoria. Deste modo, o que os xamãs usavam para atingir níveis alterados de consciência e talvez um pouco de sabedoria, os detentores do poder político e dos meios de comunicação usam para manter as massas em um tipo de transe.


Tendo noção de tudo isso, acho possível separar as coisas e talvez aprender a usar essa consciência mágica ao meu favor e em favor de minha escrita. Tenho tentado fazer o seguinte. Primeiro eu me deixo ser atingido por uma gama considerável de informações e imagens mais ou menos selecionadas. Leio o capítulo de um livro, uma revista em quadrinhos, acesso a sites variados e blogs, escuto música, vejo televisão etc, deixando minha cabeça pesar de tanta coisa acumulada. Lembrando que isso deve ser feito com algum critério e não aleatoriamente.





Como já diriam os astrofísicos se conseguirmos concentrar centenas de toneladas em um corpo do tamanho de um granulado de brigadeiro, como acontece com as estrelas de nêutrons, provavelmente surgirá um buraco negro ali. Pois acho que a analogia é mais do que precisa, pois o que faço pra terminar é exatamente isso: desligo e silencio todo esse excesso de informações, relaxando e sentindo o nada pairando em meus pensamentos. Concentro-me nesse nada, nesse buraco e dele as idéias acabam surgindo aos montes.

Tem dias em que as idéias são tantas que fica difícil garimpa-las, catando as melhores para por no papel ou na tela. Por via das dúvidas anote tudo e depois veja o que pode ser usado onde e quando for mais apropriado. A idéia é legal e funciona.

Mas voltando à questão: Que tipo de texto pariremos a partir desse descentramento? Não tenho como responder isso agora, o que torna esse ensaio um mero ponto de partida. No momento tudo o que posso fazer é criar mais táticas pra ver se algo de interessante nasce e quando isso acontecer vai ser como falar com os Deuses.




quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

O Blog e a Escrita Pré-apocalíptica



O que eu preciso para voltar a escrever? Quem sabe se eu voltasse a fumar, pensei. Tentei um charutinho de 70 centavos cuja marca tem nome de mulher. Acendi e olhei para o alto, praquelas nuvens sempre tão exclusivas no céu desta aerada manhã. Senti como se voltasse a respirar. Não, já não falo do tabaco. Falo de quando comecei a escrever isso aqui. É como se tivesse chegado de viagem de um lugar distante onde as leis fossem incomuns. Retorno a um apartamento abafado, com cheiro de falta de sol. Abro portas e janelas. O vento luminoso vai se espalhando por toda parte, ocupando cada brecha entre as brechas da matéria, este aquário onde nadamos ou nos deixamos boiar.


Cada divagação vai trazendo cor á minha pele. Começo a olhar para os móveis, para minhas coisas, estas palavras, o som dos meus dedos no teclado, o gosto do tabaco e do café de horas atrás com o qual brindo á goladas este renascimento. Agarro-me a tudo isso, com medo de ser despejado. Não quero voltar ao nada. Prefiro este tudo, onde esses textos vivem o meu viver e a troca ocorre, sem cerimônias.


Vejo então com a clareza do azul entre aquelas nuvens que não há muita escapatória para ideais infinitos. Os antigos tempos onde havia tão alta literatura, música, filosofia, eram tempos cruéis. Infelizmente esse era o preço.


É muito fácil filosofar quando se vive cercado por meia dúzia de escravos. Não precisaríamos pensar em mais nada que não na idéia, seja ela qual fosse. Poderia escavar cada vez mais fundo até furar e chegar no outro lado de um conceito. Mas este não é o mundo antigo, graças aos Deuses. Não temos mais escravos, apenas empregos e empregados. Muito trabalho, informação e correria. O mundo é menos cruel, temos mais leitores, mais consumidores de tudo. Sacrificamos homens livres para fabricar artistas e pensadores no passado. Hoje sacrificamos artistas e pensadores para produzir leitores livres e compulsivos consumidores.


No início reagi ao ônus disso tudo simplesmente assumindo, com muito pesar, a morte da literatura. Já superei o processo do luto e penso no que fazer a partir de agora. Conversei com Rimbauld e Borges, ambos riram de mim, riram daquela esperança lá no fundinho, que eu ingenuamente sempre tive, de que a literatura iria retornar como um tipo de messias ressuscitado. Depois falei com Marx e até com Asimov sobre a possibilidade de hordas de robôs serem fabricadas a fim de substituir os escravos dos velhos tempos, de modo que voltássemos à era das obras grandiosas sem que para isso pessoas fossem sacrificadas.



Sei que não sou o primeiro nem o único a pensar nessa possibilidade, mas com o capitalismo em pleno desenvolvimento isso se mostra tão distante quanto as deliciosas utopias anarquistas com as quais já muito me masturbei (e ás vezes ainda me masturbo) em noites enluaradas. Na boca fica um gosto de vinho e gasolina só de pensar.


Marx chora enquanto refaz seus cálculos. Asimov me sacode os ombros, estapeia minha face, exigindo mais foco quanto à questão dos robôs escravos. Desculpa, Isaac, mas não vai dar. Mesmo que a idéia progredisse nas próximas décadas, existem agora problemas ecológicos de proporção apocalíptica que certamente exigirão mais atenção da humanidade durante o período de minha curta vida. Como não estou certo quanto à possibilidade de reencarnação ou vida após a morte não pretendo investir em algo de cujos frutos não poderei arrancar nem sequer uma saborosa mordida. Vai que antes mesmo disso ocorrer um meteoro nos destrua a cultura inteirinha de uma só vez?


Sim, não é nada fácil viver num mundo de correria, cybercapitalismo e problemas apocalípticos. Isso nos torna estressados, o tempo todo com uma sensação de que não vai dar tempo. Não vai dar tempo do que? De deixar um legado? No meu caso talvez a neurose seja essa. O único livro que escrevi foi em tiragem limitada para amigos, pelo fato de meu senso crítico ficar o tempo todo me dizendo pra não alimentar o lixo cultural que tem circulado. Não, nunca escrevi nada de grandioso. Já disse, não quero ter escravos e os robôs não são viáveis agora. Tenho filho para sustentar e preciso portanto mergulhar neste admirável mundo veloz, tão avesso à profundidade.


Não há tempo. Meteoros, uma era glacial antecipada, uma guerra mundial repentina decorrente do retorno da guerra fria, um acidente nuclear, uma epidemia. Tudo isso contribui pra que eu procure dividir o que sinto com outros seres humanos, agora já não mais antes de meu próprio fim, mas da humanidade, como espécie e como cultura.




Então escrevo para mim e passo para os amigos quando o impulso é verdadeiro. Tudo por medo de não ter tempo de registrar textos, mandar pra editoras, conseguir contatos em alguma revista ou jornal etc. Mas e quanto ao blog? Lembrei dele agora. Antes que coisas terríveis aconteçam, vou publicar aqui mesmo, neste blog, livre de ter que prestar contas a editores, ou a um público alvo. Agora somos só nós. Eu, o texto e o leitor invisível ou imaginário (a essa altura foda-se, não é mesmo?).


A literatura está mesmo morta. Em tempos de correria, que venham os textos corridos ao menos, lidos na tela brilhante e incômoda. Do jeito que der pra fazer. Meu registro fica aqui, até o primeiro colapso virtual e toda a Internet tiver que ser refeita, ou até que a humanidade se encerre como um computador sendo formatado e as lulas gigantes assumam o posto de raça inteligente a dominar a Terra. Ou quem sabe aqueles robôs?