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terça-feira, 18 de maio de 2010

Ingenuidade e Escrevência



Esse negócio de ingenuidade não tem muito remédio não, embora ter consciência dela possa permitir uma percepção inédita da realidade que deixamos que nos cerque. Ao olhar para o passado então, é possível ver enfileirados os inumeráveis erros e acertos que essa frágil força delirante incita a cometer.

Nos dias de hoje? Ah, é igualzinho a antigamente, mas quando se tem consciência do mecanismo é muito mais estranho e desanimador. Essa percepção tem me levado cada vez mais á conclusão de que não nasci para viver em sociedade. Outros prazeres antissociais no entanto tem seu sabor amplificado. Preguiça internetal embebida em séries, leituras, filmes, desenhos pra ver com o filhão, ficar quieto em casa namorando com a minha gata...

Do outro lado do processo, está o escritor solitário das madrugadas, quebrando em gravetos menores sua antiga vida, a fim de com eles alimentar a fogueira do livro que, publicado ou não, será feito. E feito de alma.

Ah, quanto ao assunto da ingenuidade? Já disse, não tem remédio. Talvez usa-la ao meu favor, como aqueles escritores presos que heroicamente usam o cárcere como ninho para seus livros. 

Pode a ingenuidade, em algum nível, tornar-se um ninho para meus livros? Sabe que é até possível? Afinal, só sendo muito ingênuo para, nos dias de hoje, apostar a vida na escrevência.  



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Adeus nosso de cada dia



Vida. Conjunto que no todo é despedida, um imenso adeus subdividido em bilhões de despedidas menores, um tipo de mosaico de tchaus.

Já notou o quanto superestimamos os pensamentos?

Parece até que são tudo, algo muito superior e bla bla bla. Mas não passam de linguagem, representação, flauta, pena, pincel, martelo etc. Não nego que sejam sofisticados , mas não são o que mais importa. Vale o que está por trás de cada idéia, do que a levou ao nascimento, o que dela se fez, o que aconteceu a partir o que se fez. Idéia sem movimento é um livro fechado, guardado num baú lacrado e enterrado na lua.

Movimento. O fechar que é também um abrir de portas novas. Novas imagens, pessoas, situações, aventuras, deleites, experiências, saberes, decepções, morrer e renascer... Tudo isso só freiado quando de encontro ao muro do que ficou para trás.

Os velhos confortos do ninho anterior, a dureza aquecida e a proteção que não protege de si mesmo, o doce sabor da casca que sempre foi tão boa de se lamber. Disso só lembrança, glorificada ou não, volta não há.

Acessar as velhas vantagens não há como. Mas esse muro tem sua utilidade. É possível subir sobre ele e lá do alto observar ambos os lados. Futuro e passado. Ontem e hoje. É possível levar mais gente pra lá também, sentir o vento no rosto que só a altura avantajada do muro nos permite sentir.

É possível avistar até mesmo o céu estrelado, sem precisar olhar para o alto. Basta vê-lo refletido no espelho das águas, que mesmo turbulentas refletem...

Quando se pega jacarés no mar estrelado, é interessante que não precisamos nos esforçar muito, sobretudo quando a onda é grande demais pra termos pleno controle de seus desdobramentos. Então o jeito é dar um leve impulso adiante, abrir bem os olhos para não perder nem o mais mísero instante piscado e então deixar-se levar, na velocidade, na altura, na fluidêz sem futuro.

Também é possível furar a onda, quando esta é grande demais, mas é sem graça e mais apropriado á frangos dágua. Melhor mesmo é pegar carona e viajar em sua crista.

Talvez algum dia outra apareça, ainda maior ou menor, sei lá. Então voltamos para o mar e nos preparamos para mais um impulso.

Nunca uma onda é igual a outra. Todas começam e terminam e começam e...

Jamais param de morrer e nascer e...

Eu?
Parar de nascer (e morrer e...)?

Nem!

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Envelhecendo



É muito comum de se ouvir que as crianças hoje em dia estão mais desenvolvidas do que antigamente. E é verdade. Pesquisas tem mostrado que as crianças deste século tem desenvolvido muitíssimo mais em termos intelectuais do que as de outrora. Isso parece ter algo a ver com essa história de Era da Informação.

A velocidade com que somos atingidos com conhecimentos e notícias, somado ao nosso ritmo de vida, seja quanto a estudos, trabalho, internet etc, mal nos dá tempo de refletir a respeito de qualquer coisa. Assim, aprendemos muito em pouco tempo, embora o saber real, aquele que se adquire com reflexão, através de pausas pra pensar e produzir pensamento, esse tem se tornado cada vez mais raro.


Nas crianças isso já tem esse bizarro efeito "amadurecedor". Elas são consequentemente mais espertas, embora anuladas quanto á experiências de vida, que de forma alguma podem ser adquiridas por aquilo que não nos toca, como este mundinho virtual, por exemplo, ou mesmo aqueles das lan houses, onde os pais tem despejado seus filhos. Video games, televisão, lan houses, diversão virtual e segura. Experiência zero. Conhecimento mil. Espertos sim. Sábios? De jeito nenhum.

Se as crianças já estão envelhecendo mais cedo e ainda assim crescendo vazias, imagine os próximos velhos, aqueles que estamos para nos tornar? Sim, é triste mas é verdade. Esse ritmo acelerado de vida também nos tem envelhecido mais rápido. Não é só com as crianças é conosco também. E isso ilustra muito bem o que sempre considerei uma máxima, o fato de que maturidade e velhice não são necessáriamente conceitos interdependentes, assim como conhecimento não é sinônimo de sabedoria. Consequentemente, crescem crianças espertas e vazias, tornando-se adultos envelhecidos e frustrados pelo buraco da ausência de experiência. Seja bem vindo á pós-modernidade, hiper-modernidade, agoridade, chame como quiser. A consequência continuará sendo a mesma e já estamos sentindo na pele.


E quanto a mim? Tenho minha cota de experiências, pois valorizo isso mais do que tudo e principalmente mais do que o conhecimento. Troco mil vezes a melhor página do melhor livro
por algo que me toque de verdade, embora acabe que a experiência me leve até esta mesma página. No caso o conhecimento acaba sendo um fruto disso e não o contrário. Já reparou que tem certos livros que só entendemos de verdade depois que passamos por determinada experiência na vida? Pois é por aí. Isso já me levou a radicalismos contra a internet, o que também me foi muito útil, uma vez que ampliou o meu tempo, aumentando as minhas horas de leitura e escritura. Acaba que radicalismos não dão muito certo. Mas já sei como sou. Primeiro defendo um lado do extremo, condeno a internet ao inferno. Depois me afundo dentro dela até estar sufocado em merda virtual. Então chego num tipo de equilíbrio, este que acabo de atingir agora, desde que comecei este blog.



Quem me dera esse equilíbrio fosse algo como um nirvana, um tipo de estado zen que me fizesse superar meus defeitos e os defeitos de nossa era. Eu seria um buda agora ou algo similar. Mas infelizmente não alcancei tal estado de espírito. Primeiro porque não passo de um ser humano, segundo porque não acredito em metas ou finais, o que torna esta busca por equilíbrio entre conhecer e saber algo infinito, sem recompensa no final, embora com direito á pequenas sobremesas no caminho. Vou envelhecendo. Isso sim é um fato consumado e que terá um fim, a qualquer dia, a qualquer momento, no dia de meu último dia.

A diferença entre um velho sábio e um velho vazio é a seguinte. O primeiro não para de aprender nunca. Respeita suas próximas limitações, se fecha pra determinadas coisas mas só para poder continuar a se expandir em outras áreas, mais importantes no momento. Já o segundo se cerca de preconceitos e vive para sempre preso em sua ilusão de mundo perfeito, daquele passado dourado que jamais voltará. Provavelmente os dois se tornarão rabugentos, repetirão informações várias vezes, terão manias e tiques adquiridos com o hábito, mas em essência a diferença é brutal. O primeiro sabe que está crescendo e aproveita isso enquanto pode. O segundo tenta impedir esse processo. O medo da dor o leva ao medo da experiência, então ele se fecha.

Gostaria de ser um velho sábio, desde hoje. Um que não pare de aprender nunca, apesar das limitações. Que não pare de se expandir e se encantar, apesar dos hábitos repetitivos. Que não pare de viver a vida real com intensidade, apesar da internet. Que de algum modo jamais faleça, apesar da morte. Aprender ao máximo, de tudo um pouco, principalmente do que me falta. Cada dia um dia, cada instante um eu, ainda que carregando o mesmo nome e talvez a mesma barbicha tôsca. Envelhecendo... Fazer o que?



sexta-feira, 6 de julho de 2007

As Fontes



Tem dias que tenho a impressão de que algumas filosofias bastante antigas me parecem na verdade muitíssimo atuais. Dentre essas temos o exemplo vivo do xamanismo, que tem sido utilizado com sucesso por correntes da psicanálise e mesmo outras áreas científicas (teoria gaia, por exemplo). Mas gostaria de enfatizar um caminho antigo semelhante ao xamanismo até onde sabemos mas que possui suas especificidades. Trata-se do druidismo.
Para começar, a própria palavra "druida", que tem o significado de "aquele que encontra as fontes". Isso era algo que apresentava um certo duplo sentido, afinal as fontes eram importantíssimas para os povos celtas. Não é a toa que houvessem tantas divindades diferentes para representar lagos e fontes. Temos inclusive a Dama do Lago ainda viva nas histórias da távola redonda não por acaso. No entanto, os druidas eram também tidos como sábios e com toda certeza posso afirmar que ao menos parte daquilo que nomeamos de "sabedoria" tem muito a ver com isso: a arte de encontrar as fontes.



Não importa se passaram 2, 3, 4 mil anos. Achar fontes é hoje em dia uma arte sem igual. A era da internet nos permite acesso á uma multidão de temas quase infinito, numa espécie de labirinto em forma de teia, sempre mutante. Se quero buscar saber de um determinado assunto, tal como: estrelas, por exemplo, não vou encontrar muita coisa importante no site do Uol, mas se eu pesquisar usando o mecanismo de busca mais apropriado acabarei chegando ao site do Hubble ou algum outro derivado do site da Nasa. Das próximas vezes em que precisar saber sobre estrelas já vou direto no Hubble.
Penso que um druida hoje em dia faria a festa com a internet. Claro que ele não se esqueceria do mundo ao seu redor, o mundo real e palpável (que por sinal precisa ser salvo, o que pra ele seria prioridade), mas certamente se utilizaria bem da internet como um modo de pesquisa, consulta de contatos, informações. Seria para ele um artefato mágico de grandioso poder mais do que uma fonte de bobagens infinitas. Aí é que está a questão: bobagens infinitas ou artefato de poder grandioso?
Não é preciso ser radical demais nesse ponto, eu sei. Um pouco de bobagem também é bom. O velho e bom equilíbrio se faz necessário aqui, como em tudo. Bobagem é bom de vez em quando pois é o que menos importa no fim das contas. Quanto ao que importa, para isso existem as fontes, aquelas que nos pouparão tempo e esforço, levando-nos o mais rápido possível rumo ao objetivo de nossa busca.
Mas o que buscar? O que focalizar nesse mar de informação e desinformação sem fim? Cada um tem seu foco. Ás vezes me imagino um druida pra tentar focar como ele focaria. Como seria seu critério? O pensador que mais me levou perto do que imagino ser tal critério é um sujeito chamado Heráclito. Só essa simples frase já diz muito nesse sentido: "Um pra mim vale mil se for o melhor".



Heráclito não para por aí. Quando diz sobre o conhecimento que é essencial, escreve:

"O conhecimento que rege tudo através de tudo" e que "é diferente dos demais (conhecimentos)"

Fico imaginando esse filósofo usando a internet e então chego perto do que imagino e intuo ser o modo de focar que o druida apresenta ante as coisas e assim vai achando as fontes.
Estou certo de que existe um druida em cada um de nós, bem como um Heráclito e também um tolo. Sabedoria é não deixar que nenhuma dessas facetas predomine por completo por tempo demais. O tolo pode ser motivo de diversão garantida, para si e para os outros na ocasião apropriada. Mas se o tolo predominar, morre o Heráclito, esquece-se o druida que existe em nós. Troca-se as fontes pelas poças.



A partir de agora trarei para este blog, todo mês, nesta mesma coluna, uma dica de site do mês, tendo em vista essa perspectiva do "foco de um druida" dentro dos mais diversos temas. Os links serão colocados no final deste blog, lá embaixo. Confira...






Algo mais



Saramago disse numa entrevista que aparece no documentário "Janela da Alma" que a sociedade humana cada vez se parece mais com um parque temático. Aquilo me marcou devido á verdade no que ele dizia. Se pensarmos direito é disso que se trata a cultura pós-moderna. Trabalhamos todos no grande parque, vendendo ingressos para a montanha russa ou algo do tipo. Então, no final do dia, juntamos o dinheiro obtido e gastamos tudo na mesma montanha russa. A risada e a alegria são tudo. A vida passa e tudo o que carregamos é a lembrança do parque. Tudo que deixamos é a nossa gargalhada, perdida no vácuo efêmero. Será só isso a vida? Pra mim não, cansei do parque.



Existe o parque e existe o algo mais, aquilo que transcende o ordinário e dá gosto de viver, não só pela alegria que proporciona pois vai além da alegria. Chega no intelecto e depois o transpassa. O algo mais é aquilo que toca a alma por inteiro e não apenas um sentido ou outro. Acaba que cada vez menos temos algum tempo para o "algo mais". Então o deixamos em segundo, terceiro lugar (isso quando as raras pausas do parque nos permitem lembrar disso).
Foi então que percebi que trata-se de foco. Não é pra banir a diversão mas sim pra mirar na cara daquelas que além de prazer também me trazem um pedaço, uma pista para algo mais. O centro deixa de ser a montanha russa e passa a ser o que importa. Então tudo o mais passará a me conduzir para isso. Trabalho para isso, gasto o meu dinheiro para isso, me divirto para isso. O parque começa a perder importância a partir do momento em que me decepciona. Sim, toda decepção nos força a repensar nossos caminhos, é sempre assim.
Quando num outro texto me assumo como mercenário, isso não quer dizer que minha vida se resume a isso, mas que estou disposto a me transformar no que for preciso pra garantir a saúde e o desenvolvimento do meu filho, da minha família. Mas o arquétipo do mercenário não é o centro, mas um modo de agir para também chegar ao centro. O mercenário tb trabalha para algo mais.
Alguns podem chamar isso de Deus, Amor, Tudo, Nada. Eu chamo de Vida. Vida mesmo e não o parque dentro dela ou a montanha russa dentro do parque. Quando deixamos de viver o algo mais, deixamos de viver a vida. As ilusões nos entretém, roubam nosso tempo e quando menos esperamos a vida acaba. Os reencarnacionistas se defendem dizendo que haverá mais vidas, outros falam em paraíso, mas nada disso é garantido. Já a Vida... bem, isso depende de cada um. Cada um cada um... E a vida vai passando...

Pai e mercenário

Só queria escrever, de repente, sobre o quanto é gostoso ser pai. Detesto criança, essa é a verdade, mas adoro, amo meu filho. Por ele eu morro, vivo, torno-me o que precisar ser. Quando penso nele, torno-me mercenário, protetor, nutridor, médico, advogado, druida, amigo, irmão e até filho. É engraçado mas é verdade. Pra mim ser pai é ter a capacidade de tornar-se tudo pelo seu filho.

Não é a toa que tem tantas fotos e videos do Arthur por aqui. Guardo isso como um registro que possa ser consultado por mim e por todos os que amamos. Pros que estão longe dá pra matar saudade. Quando trabalhando na internet, mesmo fora de casa eu acesso esse pedacinho de lembrança fixado aqui. Por que tornar esse arquivo algo público? Não sei, acho que por não ter nada a esconder e por me orgulhar de nós três.

Ser pai é uma experiência que vai se construindo em mim aos poucos. No momento preciso de grana pra garantir o básico e um pouco mais. Provavelmente não me desenvolverei em mais nada na vida enquanto não tiver uma garantia razoável a esse respeito. Mercenário por ser pai. Pai... Quem diria...