
Venho tentando abrir espaço em meio a tanto pensamento espremido, tanto cotidiano espremendo, tanto tempo que se esvai nos levando aos pouquinhos pra morte. Nossa Mãe, venho tentando faz uma data... E aqui estou... Finalmente começarei um texto (ou sequência de textos) sobre a mais underground de todas as manifestações artísticas. E não, não estou falando de quadrinhos... Mas de RPGs, ou Roler Playing Games. Traduzindo: Jogo de interpretação de papéis.
Nesses 15 anos como narrador, pode-se dizer que tenho alguma reflexão com base empírica, portanto não vou fazer tese de mestrado não, apenas um ensaiozinho dizendo o que penso, que já está ótimo. Primeiro vamos às polemizações que tenho visto com o passar dos anos. Entre aqueles que curtem o tema e sabem sobre o que se trata (ou que não curtem e não sabem) existem os que denomino de Curtidores, Artistas e Exorcistas. E não adianta dizer que se pode ser um pouco de cada, pois no fim das contas predomina uma visão ou outra.

Curtidores são aqueles que vêem no RPG um espaço para o mais puro entretenimento. Para esses, trata-se de um espaço para socializar, dar risada, beber, vivenciar histórias bacanas, mas enfim, não estão preocupados com aspectos estéticos e jamais viram neste jogo a possibilidade de uma manifestação artística. Na verdade os curtidores detestam a possibilidade de mesclar filosofia, existencialismo e outras inovações do gênero às suas aventuras povoadas de dragões, poderes encantados, guerreiros em masmorras, vampiros e lobisomens. Para os curtidores, inovar não importa, desde que se mantenha alto o grau da diversão, de modo que inovação para eles não passa de uma mudança de roupagem e um leve ajuste no tema.

Num RPG voltado para a arte, o mesmo se sucede várias vêzes, embora com uma diferença fundamental: É mais ativo do que passivo, o que o diferencia de todas as demais manifestações criadoras, conseguindo a proeza de se mesclar mensageiro e receptor num só ser. Pode parecer pretensioso, e talvez seja, mas pra mim isso acaba dando margem pra que ele se torne o Santo graal das artes até então, pois além de ser pouco divulgado, de difícil acesso e impopular, ainda por cima tem a grande maioria de seus adeptos do lado dos Curtidores, o que dificulta aos novatos ver algo além de dados e pancadaria. Já para os que tem a sorte de chegar até a este Alto-RPG, porém, só posso dizer estes são privilegiados. Os primeiros apreciadores de uma arte que ainda é embrionária e cujo potencial é infinito.

Em última instância estão os Exorcistas. Existem pessoas que nunca ouviram falar nisso ou que simplesmente assumem não saber do que se trata. Mas os que denomino de Exorcistas acreditam mesmo saber do que falam, mesmo que tenham como única base notícias distorcidas de jornal (basta ver o acompanhamento da mídia quanto ao caso do assassinato ocorrido em Ouro Preto a alguns anos atrás) e em preconceitos morais e religiosos. Então, com base nisso, elas pregam contra, fazem protestos, entram na justiça, levantam tochas e seguem em frente! Destes tenho grande pena. Saber do que se trata e se posicionar ou meramente assumir sua ignorância quanto a um assunto é uma coisa, mas condenar cegamente é outra completamente diversa.
Tudo isso me faz lembrar da idade média, nos bardos e em toda a riqueza da tradição oral que a muito foi deixada de lado por essa humanidade letratada e imagética da qual fazemos parte. Era impressionante o quanto as palavras eram temidas e o quanto eram temidos aqueles que as manipulavam. As vezes acho que tudo isso está relacionado. Que o Rpg é o caminho para a Arte com A maiúsculo, pra mim já parece claro e sei que os que véem neste jogo algo que vai muito além de um jogo, conseguem ter um vislumbre similar. Os Curtidores se apegam tanto no fator "jogo" e nas questões do entretenimento, que parecem temer dar um passo além de si mesmos e possívelmente esse conceito os acompanha também em relação a outras manifestações artísticas e culturais. Temor semelhante marca os Exorcistas, mas eles levam esse medo às últimas consequências, levantando bandeiras e criticando o que não entendem. O temor e o poder que tal temor representa. A aura de superstição, que para alguns é vivenciada com intensidade, por outros é disfarçada pelo abafamento, muito conveniente, do entretenimento. Percebem o quanto tudo isso parece medieval?
Agora, podem vir com argumentos do tipo: "Ele deixa de fazer outras coisas para jogar RPG, trabalhar é mais importante que o RPG, deixa de namorar pra jogar RPG etc, oh, que terrível!" Certo. Mas se o sujeito fosse um músico, ainda que medíocre, todos diriam: "Veja, como é dedicado... deixa de fazer outras coisas para tocar sua música... ás vezes troca o trabalho e os estudos para se dedicar à música... Oh, como é dedicado..." Percebem a diferença? Não se trata de um ser arte e o outro não. Trata-se de bem e mal, luz e sombra, dinheiro bruto e inspiração pura... Enfim, preconceito.
Não deixo de amar música, literatura, teatro, quadrinhos, cinema etc, por causa da arte rpgística, mesmo porque me inspirar nelas (e usa-las dentro do jogo, mesclando tudo à narrativa) é fundamental para se chegar ao Alto-RPG. Mas afirmo com todo orgulho: No mundo da arte, já fui arrebatado por textos de Borges, poemas de Fernando Pessoa, músicas de Bethoven e Stravinsky, peças de Shakespeare e Nelson Rodriques, quadrinhos de Alan Moore, Neil Gaiman, filmes de Felinni, David Lynch e enfim, muitas outras manifestações altamente poderosas e inspiradoras. Mas houve experiências no campo do RPG que não só foram além, como também seriam intraduzíveis em outras áreas... Isso mesmo que você acabou de ler: Além! E é por isso que afirmo-o não como arte, mas como Arte! E truco!

Agora, se você quiser continuar a vê-lo como um nada que não contribuirá para o enriquecimento de sua vida e por isso não lhe interessa; uma tarde de diversão jogando dados e dando risada enquanto contam histórias juntos, mesmo que viva afirmando que isso não é mais importante pra você do que seu video-game; Ou pior, coisa do demônio! Queimem os livros, arranquem suas línguas com alicate etc... Tudo bem... O ônus será inteiramente seu!
Mas me enche de felicidade saber que, graças aos Deuses, não morrerei sem ter aprendido o prazer de ler um Guimarães Rosa, ouvir um Astor Piazolla tocando acordeon, dar deliciosos beijos na boca sob o luar, tomar um bom café vendo o entardecer e, claro: Ter sido apresentado ao bom e velho RPG e estar continuamente buscando dar um passo além dele, da mera diversão e dos dados.
Longa vida à mais antigamente nova de todas artes! Longa vida ao RPG!






Além de Compositor e também fabricante e tocador de Rabeca (espécie de Violino Caipira), Viola, Violão e Cavaquinho, Zé Coco foi também marceneiro, carpinteiro, ferreiro, sapateiro e fazedor de cancelas, carro de boi, roda de rolar mandioca, etc.
Zé Coco viveu até seus 68 anos como luthier, praticamente no anonimato, construindo e consertando instrumentos musicais e também animando bailes na região. Também compunha, mas muitas das suas composições acabaram se perdendo por falta de registro.
Zé Coco do Riachão foi descoberto quando já tinha quase 70 anos de idade, por Téo Azevedo, repentista e pesquisador de Cultura Popular e que foi também quem lhe deu o apelido "Riachão"! E Zé Coco gravou três discos: "Brasil Puro" (Rodeio/WEA em 1980), "Zé Côco do Riachão" (Rodeio/WEA em 1981), e "Vôo das Garças" (Rima em 1987), por sinal, o que Zé Coco mais gostou por ter saído "...do jeitinho que eu queria e não tem gravadora no meio..." E até o momento, somente o "Vôo das Garças" é que foi remasterizado em CD (pela Lapa Cia de Ação Cultural em 1997) e com acréscimo de três músicas inéditas até então: "Moda Prá João de Irene", "Amanhecendo" e "Minha Viola e Eu". Zé Coco, no entanto, deixou muitas musicas que se perderam sem gravação...
Em 1997, ano anterior ao seu falecimento aos 86 anos, vítima de um derrame, Zé Coco do Riachão participou de um excelente show no Sesc-Pompéia em São Paulo, ocasião na qual a gravadora 

