quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Caosbismo



Agora era todas as coisas
As casas ao sol e a sombra alisando a montanha

A ladeira e o desejo de rolar nu sobre ela
Todas as moças a varrer em uníssomo
7 quarteirões seguidos

A música recatada em um bilhão de fones

O rosto triste e a risada estrelada
na multidão ornada de vazio
A fumaça do incenso viajando desenbestada
em seu rastro fugaz de perfume

Sou a moto veloz circundando a ribanceira
e a menina negra a caminhar em seus chinelos
serenamente a mascar gomos de mexerica

A floresta lendária que já existiu
e o velho repensando a vida,
mil anos após minha morte

Uma piada contada por um alienígena anos-luz daqui
e a risada inaudita impensável

O enigma do hexágono de saturno
As bolhas de ar congeladas
nas águas profundas
de Europa
Os vulcões transbordando em Io
A superfície de metano gelatinoso em Titã

Coxas, cabelos, dentes, hálitos
O descascar e o revestir dos tecidos
O grito do orgasmo, o tesão frustrado
A criança nascendo e o cão dormindo
na quentura do asfalto

A sensação dos dedos a folhear páginas,
clicar mouses, apertar gatilhos, digitar teclas
espremer espinhas, apontar caminhos

Uma espécie de peixe que sabe contar até 4
Um macaco vencendo um homem num jogo
Um junkie aloprado suando sem parar

Os papiros queimados em Alexandria
antes do fogo os queimar

Sou o desdito, o desfeito
O silêncio antes da idéia
A ausência da linguagem

Era agora a anti-coisa inacabando





quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

O Blog e a Escrita Pré-apocalíptica



O que eu preciso para voltar a escrever? Quem sabe se eu voltasse a fumar, pensei. Tentei um charutinho de 70 centavos cuja marca tem nome de mulher. Acendi e olhei para o alto, praquelas nuvens sempre tão exclusivas no céu desta aerada manhã. Senti como se voltasse a respirar. Não, já não falo do tabaco. Falo de quando comecei a escrever isso aqui. É como se tivesse chegado de viagem de um lugar distante onde as leis fossem incomuns. Retorno a um apartamento abafado, com cheiro de falta de sol. Abro portas e janelas. O vento luminoso vai se espalhando por toda parte, ocupando cada brecha entre as brechas da matéria, este aquário onde nadamos ou nos deixamos boiar.


Cada divagação vai trazendo cor á minha pele. Começo a olhar para os móveis, para minhas coisas, estas palavras, o som dos meus dedos no teclado, o gosto do tabaco e do café de horas atrás com o qual brindo á goladas este renascimento. Agarro-me a tudo isso, com medo de ser despejado. Não quero voltar ao nada. Prefiro este tudo, onde esses textos vivem o meu viver e a troca ocorre, sem cerimônias.


Vejo então com a clareza do azul entre aquelas nuvens que não há muita escapatória para ideais infinitos. Os antigos tempos onde havia tão alta literatura, música, filosofia, eram tempos cruéis. Infelizmente esse era o preço.


É muito fácil filosofar quando se vive cercado por meia dúzia de escravos. Não precisaríamos pensar em mais nada que não na idéia, seja ela qual fosse. Poderia escavar cada vez mais fundo até furar e chegar no outro lado de um conceito. Mas este não é o mundo antigo, graças aos Deuses. Não temos mais escravos, apenas empregos e empregados. Muito trabalho, informação e correria. O mundo é menos cruel, temos mais leitores, mais consumidores de tudo. Sacrificamos homens livres para fabricar artistas e pensadores no passado. Hoje sacrificamos artistas e pensadores para produzir leitores livres e compulsivos consumidores.


No início reagi ao ônus disso tudo simplesmente assumindo, com muito pesar, a morte da literatura. Já superei o processo do luto e penso no que fazer a partir de agora. Conversei com Rimbauld e Borges, ambos riram de mim, riram daquela esperança lá no fundinho, que eu ingenuamente sempre tive, de que a literatura iria retornar como um tipo de messias ressuscitado. Depois falei com Marx e até com Asimov sobre a possibilidade de hordas de robôs serem fabricadas a fim de substituir os escravos dos velhos tempos, de modo que voltássemos à era das obras grandiosas sem que para isso pessoas fossem sacrificadas.



Sei que não sou o primeiro nem o único a pensar nessa possibilidade, mas com o capitalismo em pleno desenvolvimento isso se mostra tão distante quanto as deliciosas utopias anarquistas com as quais já muito me masturbei (e ás vezes ainda me masturbo) em noites enluaradas. Na boca fica um gosto de vinho e gasolina só de pensar.


Marx chora enquanto refaz seus cálculos. Asimov me sacode os ombros, estapeia minha face, exigindo mais foco quanto à questão dos robôs escravos. Desculpa, Isaac, mas não vai dar. Mesmo que a idéia progredisse nas próximas décadas, existem agora problemas ecológicos de proporção apocalíptica que certamente exigirão mais atenção da humanidade durante o período de minha curta vida. Como não estou certo quanto à possibilidade de reencarnação ou vida após a morte não pretendo investir em algo de cujos frutos não poderei arrancar nem sequer uma saborosa mordida. Vai que antes mesmo disso ocorrer um meteoro nos destrua a cultura inteirinha de uma só vez?


Sim, não é nada fácil viver num mundo de correria, cybercapitalismo e problemas apocalípticos. Isso nos torna estressados, o tempo todo com uma sensação de que não vai dar tempo. Não vai dar tempo do que? De deixar um legado? No meu caso talvez a neurose seja essa. O único livro que escrevi foi em tiragem limitada para amigos, pelo fato de meu senso crítico ficar o tempo todo me dizendo pra não alimentar o lixo cultural que tem circulado. Não, nunca escrevi nada de grandioso. Já disse, não quero ter escravos e os robôs não são viáveis agora. Tenho filho para sustentar e preciso portanto mergulhar neste admirável mundo veloz, tão avesso à profundidade.


Não há tempo. Meteoros, uma era glacial antecipada, uma guerra mundial repentina decorrente do retorno da guerra fria, um acidente nuclear, uma epidemia. Tudo isso contribui pra que eu procure dividir o que sinto com outros seres humanos, agora já não mais antes de meu próprio fim, mas da humanidade, como espécie e como cultura.




Então escrevo para mim e passo para os amigos quando o impulso é verdadeiro. Tudo por medo de não ter tempo de registrar textos, mandar pra editoras, conseguir contatos em alguma revista ou jornal etc. Mas e quanto ao blog? Lembrei dele agora. Antes que coisas terríveis aconteçam, vou publicar aqui mesmo, neste blog, livre de ter que prestar contas a editores, ou a um público alvo. Agora somos só nós. Eu, o texto e o leitor invisível ou imaginário (a essa altura foda-se, não é mesmo?).


A literatura está mesmo morta. Em tempos de correria, que venham os textos corridos ao menos, lidos na tela brilhante e incômoda. Do jeito que der pra fazer. Meu registro fica aqui, até o primeiro colapso virtual e toda a Internet tiver que ser refeita, ou até que a humanidade se encerre como um computador sendo formatado e as lulas gigantes assumam o posto de raça inteligente a dominar a Terra. Ou quem sabe aqueles robôs?




quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Acordando o Mundo Antigo




Não sei do que gosto mais, se é do Mundo Antigo ou da impressão que dele tenho. É angustiante mas não dá pra saber com precisão como foi aquele período. Temos ruínas, tabletes de barro, fragmentos, bustos, narrativas folclóricas etc, mas tudo isso só serve para delinear a forma que essa era assumiu, deixando-nos com uma terrível escassês de detalhes. Preenchemos esses espaços vazios no quebra cabeças usando de nossa imaginação e de um tipo de intuição histórica.


É então que damos ao branco as cores que gostamos mais. Um sujeito obcecado por Roma, como Nietzche por exemplo, dá mais ênfase na força e na sofisticação que esse povo tinha em contraste com a fraqueza e o embotamento característicos do cristianismo. Outra pessoa poderia, porém, dizer que era um período abominável pois nele eram comuns a escravidão e o excesso de violência. Podemos dizer que um dos dois está certo e o outro errado? Claro que não, pois ambos estão certos. É importante ter uma noção circunspecta dos fatos quando se trata de história. E mais ainda quando estamos falando de história antiga, quando não existem testemunhas vivas para nos informar sobre o que é ou não verídico.



Nos filmes épicos tentam reconstruir cenários, roupas, costumes etc, mas no final o que predomina mesmo é a visão contemporânea de mundo e o foco nada neutro do diretor. Acaba que temos uma visão glamourosa ou terrível e mesmo quando há um equilíbrio entre ambas, ainda assim sabemos estar longe das coisas como ocorreram.

Eu pessoalmente gosto muito de filmes épicos, mas não é por serem verídicos. Gosto de ver o esforço em tentar ser fiel a uma época que já passou e que descansa no inconsciente coletivo da humanidade. Quanto mais eles se esforçam, mais eu gosto do filme. Dá pra perceber quando esse esforço é verdadeiro. Ainda assim em momento algum penso nestes filmes como documentos históricos. São viagens e confabulações, algumas mais bem sucedidas do que outras.




O que acontece em nossas mentes é semelhante. Por mais que se estude história, em livros, documentos, documentários etc, ainda assim o que irá predominar será o nosso foco, consequentemente uma visão encharcada de nós mesmos. Tento me esforçar pra que meu foco não seja marcado demais nesse sentido, mas o máximo que consigo é uma eterna tentativa de neutralidade que sei que está fadada ao fracasso.





Pra que continuar com essa paixão se tal neutralidade histórica é impossível? Primeiro pelo fato de que posso acabar resgatando alguma coisa dos velhos tempos, ainda que algo microscópico e insignificante, mas substancial no fim das contas. Sei que a humanidade já esteve configurada em outros moldes e em cada um deles foram perdidos detalhes importantíssimos, que fariam do ser humano uma criatura melhor.

Eis a função da história: Impedir que velhos erros se repitam e libertar fantasmas de noções enterradas pelas culturas "vencedoras", que se viessem á tona fariam da humanidade uma espécie mais avançada ou ao menos mais interessante.

Mas existem outros motivos, tais como ser um mundo muito diferente do nosso, como lembranças de uma civilização de um outro planeta, ainda que não tão distante assim do nosso. O cristianismo nos entupiu de "frescuras" de todo gênero, com a introdução do pecado e alguns valores morais pra lá de desnecessários. Assim, se antes tínhamos uma sociedade onde se valorizava atos de coragem e força de vontade, hoje são mais valorizados atributos como fé, humildade e perdão. Se antes éramos lobos agora somos cordeiros e cordeiros muitíssimo bem adestrados por padres, professores, família, exército etc.




Não é a toa que Nietzche em "Genealogia da Moral" ressalta que nos tempos antigos as pessoas usavam os Deuses como desculpa para suas ações, não importando o quão amorais estas fossem. Um assassinato poderia tanto ser resultante de uma tentação de Ares ou mesmo numa oferenda para ele, idem quanto a um ato mais valoroso, tal como um ato de coragem ou mesmo do mais genuíno amor pelo outro. Com o advento da igreja, as pessoas evocam seu deus único como um modo de evocar seu próprio senso de "consciência pesada", outra limitadora invenção Cristã.

Tal diferença de paradigma é o ponto central dessa paixão pelo mundo antigo que não consigo parar de alimentar. Até mesmo religiosamente estou sempre a relembrar velhos Deuses das mais diversas culturas nos festivais sazonais, em determinadas luas ou quando sinto que é propício. Embora não descarte a possibilidade, não tenho muita fé nos Deuses como entidades místicas de poderes sem explicação, mas ao contrário, entidades que carregamos dentro de nós, que representam aspectos da vida dos vivos e não da vida pós-morte como enfatizam os cristãos. Sei que me concedem poder, mas é um poder natural e não sobrenatural, cuja poética ao invés de limitar, impulsiona.




Então posso afirmar que essa forma totalmente pessoal de lidar com o paganismo, e mesmo com o conceito de religião em si, está mais próximo do ateísmo do que de qualquer outra doutrina religiosa. Nesse sentido, sou capaz de afirmar que uma religião não limitadora de nossa capacidade à plenitude seja possível, mas só se nos embasarmos num ponto de vista íntimo ao invés de apoiado em livros sagrados, dogmas e instituições.



Nunca me esquecerei das palavras de um amigo meu, doente pela cultura suméria, sobre uma tradição que tinham de terem em casa altares personalizados dedicados a seu próprio Deus interior, pros quais ofereciam perfumes, comidas e jóias, alimentando assim, psicológicamente, o poder de si mesmos ante o mundo e não simplesmente entidades externas que a todos regem. Somando isso a uma vida sexual nada reprimida acaba-se metendo o dedo na ferida do cristianismo e sua moral. Não é a tôa que a bíblia descreve com tanto drama a destruição de Sodoma e Gomorra, nem que as escolas tenham se esforçado tanto para manter no esquecimento o que não fosse conveniente ao poder vigente ou que todos os representantes deste mesmo poder estejam sempre arrodeados de padres ou apoiados em bandeiras moralistas.





Tais bandeiras moralistas já eram ultrapassadas na antiquidade pre-cristã. Isso nos dá uma sensação estranha e cíclica de que o futuro parece estar fazendo uma curva rumo ao passado distante e á noções "de vanguarda" que há muito se perderam sob as ruínas daquelas grandes batalhas que delinearam todo o nosso mundo presente com sua lâmina excludente. Afinal, grandes batalhas não necessariamente são grandiosas.


quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Memória Fotográfica



Não fosse por isso eu não teria feito letras, nem gostasse de linguagem, nem sentisse prazer em leituras: A professora (e uma caixa abarrotada de livros) pediu que escolhêssemos um e o levássemos. Na euforia mal deu pra escolher e acabei pegando no sorteio um livreto de vinte páginas e um título parecido com “O passarinho e a árvore” ou alguma coisa assim sem sal. Os meninos tentaram convencer-me a trocá-lo por outro cinco vezes mais grosso, de capa interessante e colorida, com naves, guerreiros espaciais e um robô no centro de tudo, além do título: “Os passageiros do futuro”. Aceitei a troca (que foi lucrativa) e o devorei com prazer, guardando-o na memória com carinho e a consciência de que ali se iniciara minha paixão pelos livros, não através de leitura imposta, mas escolhida. Detesto a coleção Vaga-Lume, mas naquela época o brilho deste pirilampo guiou-me nesta estrada torta, deslumbrante, decadente e tão etc: Literatura.




terça-feira, 4 de setembro de 2007

Ainda sobre as lacunas - O ruído necessário



Convenção: [Do lat. conventione.]

S. f.

1. Ajuste, acordo ou determinação sobre um assunto, fato, etc.; convênio, pacto.

Qual será a diferença entre a ausência de lacunas que percebemos nos filmes pop e a que vemos nos filmes B, também conhecidos como trash movies? Por que há quem opte pelo segundo tipo se o primeiro apresenta recursos muito mais caros, efeitos especiais e sonoros de última geração, além de atores e atrizes top de linha em Hollywood?

Isso varia muito de caso pra caso. Uma parcela do público dos filmes B os prefere por pura nostalgia. Houve um tempo em que filmes de monstros eram o máximo (década de 40 e 50) e tinham público tão garantido quanto a trilogia Senhor dos Anéis teve nos dias de hoje. Neste caso, estou falando de uma nostalgia referente a uma moda de época. Se agora a computação gráfica é moda, sabemos muito bem que pode ficar batida em poucos anos. No entanto sempre haverá seus saudosistas.



O fato é que o senso comum nem desconfia que os filmes trash tiveram um auge, por isso digo que os nostálgicos são uma minoria constituída por cinéfilos idosos ou nerds bem informados. Mas a maior parcela deste público, alguns consciente e outros inconscientemente, gostam bastante desse tipo de filme por um outro motivo. A lacuna que aos fãs das novidades bem feitas e no entanto padronizadas passa desapercebida. Todo filme B joga uma tijolada no frágil vidro da convencionalidade.

Assim como os filmes pop, os filmes B também não possuem a mínima pretensão de serem objetos de arte. Ambos se assumem puro entretenimento, de modo que o primeiro estabelece seu padrão de qualidade com base no dinheiro gasto na produção e margem de lucro, enquanto que o segundo ao se afirmar como lixo e se conformar com um público mínimo, define seu padrão de qualidade usando o critério inverso, isto é, quanto mais barato, melhor o filme.



Não se pode falar desta lacuna sem explicitar sua origem, que remonta aos dadaístas e ao movimento anarco-punk. Dadaísta no sentido de sua própria regra de ouro, ou seja: quanto mais criativamente antiarte, melhor. Anarco-punk, no sentido de ser uma constante pedra no sapato do status quo, nunca deixando que a arte fique estagnada. Pros que entendem o significado de tal lacuna, um determinado filme trash se não for interessante, então será no mínimo engraçado. Pros que não entendem, ele nada vale, sendo considerado até mesmo pior do que o mais convencional dos filmes, o qual será ao menos bem produzido e portanto superior a este segundo o senso comum.



Assim, pode-se dizer que quanto mais ingenuamente um filme, música, história em quadrinhos etc fira a estética vigente, melhor ele se torna. Há inclusive dois exemplos que ilustrariam bem tudo isso. No cinema, temos Ed Wood, considerado unanimemente como o pior cineasta de todos os tempos. Seus filmes eram muitíssimo mal feitos e Ed não se preocupava se o microfone aparecesse numa cena ou se faltasse verossimilhança. Ed simplesmente ignorava tais detalhes e acreditava que o filme ficaria ótimo, independente disso.



O mesmo podemos dizer de Sid Vicious, o baixista da saudosa banda Sex Pistols. Embora Vicious fosse sem dúvida o pior baixista do mundo, tornou-se um ícone do movimento punk e é reverenciado como tal mesmo nos dias globalizados do hoje. Eles não tinham a mínima intenção ou noção de tudo isso, mas eram ruins o suficiente, assumidamente, rasgadamente, até não poder mais. É paradoxal, mas era isso o que os tornava tão bons. Já um filme pop convencional se assume bom desde antes do filme, independente do resultado. O que o primeiro estilo tem de sobra em honestidade, o segundo tem em pretensão.

Uma outra opinião possível foi algo que já ouvi a respeito deste tema. Algo como: “Não me interessa uma arte que só sirva pra horrorizar os boys”. É uma opinião respeitável, sem a menor dúvida. Mas é bom parar pra pensar em como seria este mundo sem a presença ruidosa e barulhenta das “trasharias”. Imagino que o mundo se tornaria algo muito parecido com um shopping, sinistramente limpo, claro e reto como só a normalidade excessiva consegue ser. Enfim, seria um mundo mais conservador, mais sério, mais chato e conseqüentemente muito mais triste. O tipo de lacuna cuja presença faria a diferença, no pior sentido possível.


Ps: Tanto Ed Wood quanto Sid Vicious foram imortalizados pelo cinema, nos filmes Ed Wood (do Tim Burton e com o Jonny Depp interpretando o próprio) e Sid & Nancy (não sei o diretor mas quem faz o Sid é ninguém menos que o Gary Oldman).



quarta-feira, 18 de julho de 2007

Trilogia Qatsi



Em 1982, o diretor Godfrey Reggio havia finalmente conseguido lançar seu filme de estréia. Um filme chamado Koyaanisqatsi. A idéia era fazer um filme sem atores ou diálogos, uma história contada através de imagens aliadas a uma trilha sonora hipnótica, que casava perfeitamente com o projeto. Para tanto o músico minimalista Philip Glass acabou por aceitar tal papel. Era uma proposta audaciosa, mas suficientemente interessante para chamar a atenção de Francis Ford Copolla, o qual acabou sendo o produtor executivo do filme. Assim nasceu o primeiro e mais marcante filme da trilogia Qatsi.




Destoando completamente do cinema convencional, Reggio usou paisagens naturais e urbanas magníficas, provocando várias vezes a imaginação do público e fazendo-os criar cada qual seu próprio sentido em diversos momentos. Mas as imagens não estavam jogadas ao léu. Existia um sentido na ordem em que eram dispostas, aquelas imagens contavam uma história que, juntamente com a música de Glass, nos transportava para além do factual, algo muito próximo do transe. Somente no final do filme o diretor revela enfim o significado da enigmática palavra que nomeia o filme. E faz o mesmo em seus dois filmes seguintes: Powaqqatsi e Naqoyqatsi.




Nada tenho contra o formato trilogia, na verdade até que gosto bastante, mas Koyaanisqatsi pra mim já dá conta do recado projetado pelos 3 filmes como um todo. O impacto provocado por aquelas imagens, o contraste entre o mundo natural intocado pelo homem contra o mundo tecnológico onde toda a destruição causada é justificada pela bandeira do progresso. E enfim, o signifcado derradeiro derivado da língua da tribo hopi:
vida em desequilíbrio, coisa que torna-se mais do que uma simples frase após a enchurrada de imagens e sons que acabaram de nos bombardear. Tudo isso dá a esse filme um certo ar profético e um tanto apocalíptico sobre o efeito da ação humana sobre o mundo e sobretudo sobre seu próprio jeito de viver.




Em Powaqqatsi, a dupla Reggio/Glass mais uma vez se reencontra para dar conta do recado. Chegando aos cinemas 6 anos depois do primeiro filme, desta vez Reggio explora, do mesmo modo que no primeiro filme, as maneiras como o homem explora o próprio homem e como os fins justificam os meios. Cenários de miséria tão infernais quanto surreais, como a sequência de cenas da Serra Pelada, nos causam ao fim do filme um desconforto sem igual. Enquanto no primeiro filme Reggio focaliza na raiz do problema, onde o homem subjuga a natureza e se ferra, neste ele volta a câmera para o ser humano e suas desigualdades, ou como já disse: onde homem subjuga homem. O modo de vida desequilibrado do conceito anterior provocaria uma significativa mudança no viver humano. Este seria o foco de Powaqqatsi .



Dos 3 filmes, Powaqqatsi foi o que menos gostei. As imagens, apesar do incômodo que provocam, continuam tão poderosas quanto no filme anterior. Mas ainda tinha a sensação de que tais consequências já estavam contidas, ainda que de um modo potencial, em Koyaanisqatsi. Não consegui deixar de comparar os dois. Outra coisa que me fez gostar menos deste foi a trilha de Philip Glass que dessa vez não me agradou muito.




Mas o círculo só foi se fechar mesmo em 2002, quando a dupla mais uma vez se reuniu para criar o genial Naqoyqatsi. Agora Reggio explorava o ponto onde os dois filmes anteriores culminara. Onde chegaria a humanidade com tanto progresso? Onde chegaria a humanidade sendo tão pouco humana? A somatória das duas consequências daria origem ao conceito Naqoyqatsi, também da língua hopi e que significa:
vida como guerra ou guerra como modo de vida.



Nos dois primeiros filmes, Godfrey usara de imagens magníficas de vários lugares e pessoas, sem alterar em muito. No máximo passava uma sequência em câmera lenta ou em modo acelerado. Mas no terceiro filme absolutamente todas as imagens tinham algo em comum: intervenção tecnológica. O mar é filmado com filtros de cor que o dividiam em duas cores, certos cenários eram completamente digitais, como um jogo de video game e assim por diante. A avalanche de imagens é tão intensa neste quanto nos outros filmes, mas dessa vez é marcada por uma mescla de recursos e uma rapidez vertiginosa.



A primeira cena do filme é assombrosa. Um cenário totalmente artificial é mostrado em ângulos diversos, nos deixando em dúvida sobre sua veracidade, o que nos dá uma noção de como o filme será até o fim. A trilha sonora de Philip Glass está impecável, nos transportando para uma viagem imagética que reflete muito bem o movimento acelerado e forçado dos dias pós-modernos. Assim como nos outros dois filmes nada aqui existe por acaso. As cenas tem uma ordem muito precisa e a música faz um par perfeito.



Todo esse conjunto dá ao Naqoyqatsi uma aura meio abstrata, uma vez que não estamos vendo apenas paisagens e figuras humanas, vemos também, graças à intervenção da tecnologia, a projeção de diversos conceitos, sob as mais variadas formas. De repente isso se mescla com técnicas usadas na nossa atual medicina. Em outro momento viajamos pelas expressões faciais de vencedores de provas olímpicas, celebridades e pessoas comuns, em câmera ultralenta, revelando elementos que o olho em geral deixa escapar.

Vaidade, busca pela perfeição do corpo, a postura dos militares, as diversas bandeiras e ideologias que vivem, convivem e combatem. Uma guerra, sem dúvida, mas uma guerra bastante sutil, mascarada por tanto progresso, por tantas formas de se impor ou submeter-se sem perder a pose. Vivemos uma guerra que não tem cara de guerra, ainda que destrua a nós mesmos e a todos ao nosso redor, ainda assim não parece guerra. O aquecimento global, as guerras no oriente médio, a destruição ambiental, tudo isso pode muito bem ser suportado uma vez que temos o conforto da tecnologia, das sofisticações do mundo pós-moderno.

Lutamos o tempo todo para manter a pose apesar da desintegração ser norma. Nos focamos no prazer advindo de tudo isso pra que a vida não seja desperdiçada com preocupações muito profundas. Então o tempo vai passando, o homem destrói e destrói-se, sempre envolto em elegância. Fala apaixonadamente sobre o fim do mundo e em seguida assiste a seus filmes prediletos na tv a cabo. Presencia uma injustiça, muda a música de seu i-pod e prossegue seu caminho, sem jamais perder a pose: Naqoyqatsi.




sexta-feira, 13 de julho de 2007

Envelhecendo



É muito comum de se ouvir que as crianças hoje em dia estão mais desenvolvidas do que antigamente. E é verdade. Pesquisas tem mostrado que as crianças deste século tem desenvolvido muitíssimo mais em termos intelectuais do que as de outrora. Isso parece ter algo a ver com essa história de Era da Informação.

A velocidade com que somos atingidos com conhecimentos e notícias, somado ao nosso ritmo de vida, seja quanto a estudos, trabalho, internet etc, mal nos dá tempo de refletir a respeito de qualquer coisa. Assim, aprendemos muito em pouco tempo, embora o saber real, aquele que se adquire com reflexão, através de pausas pra pensar e produzir pensamento, esse tem se tornado cada vez mais raro.


Nas crianças isso já tem esse bizarro efeito "amadurecedor". Elas são consequentemente mais espertas, embora anuladas quanto á experiências de vida, que de forma alguma podem ser adquiridas por aquilo que não nos toca, como este mundinho virtual, por exemplo, ou mesmo aqueles das lan houses, onde os pais tem despejado seus filhos. Video games, televisão, lan houses, diversão virtual e segura. Experiência zero. Conhecimento mil. Espertos sim. Sábios? De jeito nenhum.

Se as crianças já estão envelhecendo mais cedo e ainda assim crescendo vazias, imagine os próximos velhos, aqueles que estamos para nos tornar? Sim, é triste mas é verdade. Esse ritmo acelerado de vida também nos tem envelhecido mais rápido. Não é só com as crianças é conosco também. E isso ilustra muito bem o que sempre considerei uma máxima, o fato de que maturidade e velhice não são necessáriamente conceitos interdependentes, assim como conhecimento não é sinônimo de sabedoria. Consequentemente, crescem crianças espertas e vazias, tornando-se adultos envelhecidos e frustrados pelo buraco da ausência de experiência. Seja bem vindo á pós-modernidade, hiper-modernidade, agoridade, chame como quiser. A consequência continuará sendo a mesma e já estamos sentindo na pele.


E quanto a mim? Tenho minha cota de experiências, pois valorizo isso mais do que tudo e principalmente mais do que o conhecimento. Troco mil vezes a melhor página do melhor livro
por algo que me toque de verdade, embora acabe que a experiência me leve até esta mesma página. No caso o conhecimento acaba sendo um fruto disso e não o contrário. Já reparou que tem certos livros que só entendemos de verdade depois que passamos por determinada experiência na vida? Pois é por aí. Isso já me levou a radicalismos contra a internet, o que também me foi muito útil, uma vez que ampliou o meu tempo, aumentando as minhas horas de leitura e escritura. Acaba que radicalismos não dão muito certo. Mas já sei como sou. Primeiro defendo um lado do extremo, condeno a internet ao inferno. Depois me afundo dentro dela até estar sufocado em merda virtual. Então chego num tipo de equilíbrio, este que acabo de atingir agora, desde que comecei este blog.



Quem me dera esse equilíbrio fosse algo como um nirvana, um tipo de estado zen que me fizesse superar meus defeitos e os defeitos de nossa era. Eu seria um buda agora ou algo similar. Mas infelizmente não alcancei tal estado de espírito. Primeiro porque não passo de um ser humano, segundo porque não acredito em metas ou finais, o que torna esta busca por equilíbrio entre conhecer e saber algo infinito, sem recompensa no final, embora com direito á pequenas sobremesas no caminho. Vou envelhecendo. Isso sim é um fato consumado e que terá um fim, a qualquer dia, a qualquer momento, no dia de meu último dia.

A diferença entre um velho sábio e um velho vazio é a seguinte. O primeiro não para de aprender nunca. Respeita suas próximas limitações, se fecha pra determinadas coisas mas só para poder continuar a se expandir em outras áreas, mais importantes no momento. Já o segundo se cerca de preconceitos e vive para sempre preso em sua ilusão de mundo perfeito, daquele passado dourado que jamais voltará. Provavelmente os dois se tornarão rabugentos, repetirão informações várias vezes, terão manias e tiques adquiridos com o hábito, mas em essência a diferença é brutal. O primeiro sabe que está crescendo e aproveita isso enquanto pode. O segundo tenta impedir esse processo. O medo da dor o leva ao medo da experiência, então ele se fecha.

Gostaria de ser um velho sábio, desde hoje. Um que não pare de aprender nunca, apesar das limitações. Que não pare de se expandir e se encantar, apesar dos hábitos repetitivos. Que não pare de viver a vida real com intensidade, apesar da internet. Que de algum modo jamais faleça, apesar da morte. Aprender ao máximo, de tudo um pouco, principalmente do que me falta. Cada dia um dia, cada instante um eu, ainda que carregando o mesmo nome e talvez a mesma barbicha tôsca. Envelhecendo... Fazer o que?