
quinta-feira, 27 de setembro de 2007
Memória Fotográfica

terça-feira, 4 de setembro de 2007
Ainda sobre as lacunas - O ruído necessário

Convenção: [Do lat. conventione.]
S. f.
1. Ajuste, acordo ou determinação sobre um assunto, fato, etc.; convênio, pacto.
Qual será a diferença entre a ausência de lacunas que percebemos nos filmes pop e a que vemos nos filmes B, também conhecidos como trash movies? Por que há quem opte pelo segundo tipo se o primeiro apresenta recursos muito mais caros, efeitos especiais e sonoros de última geração, além de atores e atrizes top de linha em Hollywood?
Isso varia muito de caso pra caso. Uma parcela do público dos filmes B os prefere por pura nostalgia. Houve um tempo em que filmes de monstros eram o máximo (década de 40 e 50) e tinham público tão garantido quanto a trilogia Senhor dos Anéis teve nos dias de hoje. Neste caso, estou falando de uma nostalgia referente a uma moda de época. Se agora a computação gráfica é moda, sabemos muito bem que pode ficar batida em poucos anos. No entanto sempre haverá seus saudosistas.

O fato é que o senso comum nem desconfia que os filmes trash tiveram um auge, por isso digo que os nostálgicos são uma minoria constituída por cinéfilos idosos ou nerds bem informados. Mas a maior parcela deste público, alguns consciente e outros inconscientemente, gostam bastante desse tipo de filme por um outro motivo. A lacuna que aos fãs das novidades bem feitas e no entanto padronizadas passa desapercebida. Todo filme B joga uma tijolada no frágil vidro da convencionalidade.
Assim como os filmes pop, os filmes B também não possuem a mínima pretensão de serem objetos de arte. Ambos se assumem puro entretenimento, de modo que o primeiro estabelece seu padrão de qualidade com base no dinheiro gasto na produção e margem de lucro, enquanto que o segundo ao se afirmar como lixo e se conformar com um público mínimo, define seu padrão de qualidade usando o critério inverso, isto é, quanto mais barato, melhor o filme.

Não se pode falar desta lacuna sem explicitar sua origem, que remonta aos dadaístas e ao movimento anarco-punk. Dadaísta no sentido de sua própria regra de ouro, ou seja: quanto mais criativamente antiarte, melhor. Anarco-punk, no sentido de ser uma constante pedra no sapato do status quo, nunca deixando que a arte fique estagnada. Pros que entendem o significado de tal lacuna, um determinado filme trash se não for interessante, então será no mínimo engraçado. Pros que não entendem, ele nada vale, sendo considerado até mesmo pior do que o mais convencional dos filmes, o qual será ao menos bem produzido e portanto superior a este segundo o senso comum.

Assim, pode-se dizer que quanto mais ingenuamente um filme, música, história em quadrinhos etc fira a estética vigente, melhor ele se torna. Há inclusive dois exemplos que ilustrariam bem tudo isso. No cinema, temos Ed Wood, considerado unanimemente como o pior cineasta de todos os tempos. Seus filmes eram muitíssimo mal feitos e Ed não se preocupava se o microfone aparecesse numa cena ou se faltasse verossimilhança. Ed simplesmente ignorava tais detalhes e acreditava que o filme ficaria ótimo, independente disso.

O mesmo podemos dizer de Sid Vicious, o baixista da saudosa banda Sex Pistols. Embora Vicious fosse sem dúvida o pior baixista do mundo, tornou-se um ícone do movimento punk e é reverenciado como tal mesmo nos dias globalizados do hoje. Eles não tinham a mínima intenção ou noção de tudo isso, mas eram ruins o suficiente, assumidamente, rasgadamente, até não poder mais. É paradoxal, mas era isso o que os tornava tão bons. Já um filme pop convencional se assume bom desde antes do filme, independente do resultado. O que o primeiro estilo tem de sobra em honestidade, o segundo tem em pretensão.
Uma outra opinião possível foi algo que já ouvi a respeito deste tema. Algo como: “Não me interessa uma arte que só sirva pra horrorizar os boys”. É uma opinião respeitável, sem a menor dúvida. Mas é bom parar pra pensar em como seria este mundo sem a presença ruidosa e barulhenta das “trasharias”. Imagino que o mundo se tornaria algo muito parecido com um shopping, sinistramente limpo, claro e reto como só a normalidade excessiva consegue ser. Enfim, seria um mundo mais conservador, mais sério, mais chato e conseqüentemente muito mais triste. O tipo de lacuna cuja presença faria a diferença, no pior sentido possível.
quarta-feira, 18 de julho de 2007
Trilogia Qatsi

Em 1982, o diretor Godfrey Reggio havia finalmente conseguido lançar seu filme de estréia. Um filme chamado Koyaanisqatsi. A idéia era fazer um filme sem atores ou diálogos, uma história contada através de imagens aliadas a uma trilha sonora hipnótica, que casava perfeitamente com o projeto. Para tanto o músico minimalista Philip Glass acabou por aceitar tal papel. Era uma proposta audaciosa, mas suficientemente interessante para chamar a atenção de Francis Ford Copolla, o qual acabou sendo o produtor executivo do filme. Assim nasceu o primeiro e mais marcante filme da trilogia Qatsi.

Destoando completamente do cinema convencional, Reggio usou paisagens naturais e urbanas magníficas, provocando várias vezes a imaginação do público e fazendo-os criar cada qual seu próprio sentido em diversos momentos. Mas as imagens não estavam jogadas ao léu. Existia um sentido na ordem em que eram dispostas, aquelas imagens contavam uma história que, juntamente com a música de Glass, nos transportava para além do factual, algo muito próximo do transe. Somente no final do filme o diretor revela enfim o significado da enigmática palavra que nomeia o filme. E faz o mesmo em seus dois filmes seguintes: Powaqqatsi e Naqoyqatsi.

Nada tenho contra o formato trilogia, na verdade até que gosto bastante, mas Koyaanisqatsi pra mim já dá conta do recado projetado pelos 3 filmes como um todo. O impacto provocado por aquelas imagens, o contraste entre o mundo natural intocado pelo homem contra o mundo tecnológico onde toda a destruição causada é justificada pela bandeira do progresso. E enfim, o signifcado derradeiro derivado da língua da tribo hopi: vida em desequilíbrio, coisa que torna-se mais do que uma simples frase após a enchurrada de imagens e sons que acabaram de nos bombardear. Tudo isso dá a esse filme um certo ar profético e um tanto apocalíptico sobre o efeito da ação humana sobre o mundo e sobretudo sobre seu próprio jeito de viver.

Em Powaqqatsi, a dupla Reggio/Glass mais uma vez se reencontra para dar conta do recado. Chegando aos cinemas 6 anos depois do primeiro filme, desta vez Reggio explora, do mesmo modo que no primeiro filme, as maneiras como o homem explora o próprio homem e como os fins justificam os meios. Cenários de miséria tão infernais quanto surreais, como a sequência de cenas da Serra Pelada, nos causam ao fim do filme um desconforto sem igual. Enquanto no primeiro filme Reggio focaliza na raiz do problema, onde o homem subjuga a natureza e se ferra, neste ele volta a câmera para o ser humano e suas desigualdades, ou como já disse: onde homem subjuga homem. O modo de vida desequilibrado do conceito anterior provocaria uma significativa mudança no viver humano. Este seria o foco de Powaqqatsi .


Mas o círculo só foi se fechar mesmo em 2002, quando a dupla mais uma vez se reuniu para criar o genial Naqoyqatsi. Agora Reggio explorava o ponto onde os dois filmes anteriores culminara. Onde chegaria a humanidade com tanto progresso? Onde chegaria a humanidade sendo tão pouco humana? A somatória das duas consequências daria origem ao conceito Naqoyqatsi, também da língua hopi e que significa: vida como guerra ou guerra como modo de vida.
Nos dois primeiros filmes, Godfrey usara de imagens magníficas de vários lugares e pessoas, sem alterar em muito. No máximo passava uma sequência em câmera lenta ou em modo acelerado. Mas no terceiro filme absolutamente todas as imagens tinham algo em comum: intervenção tecnológica. O mar é filmado com filtros de cor que o dividiam em duas cores, certos cenários eram completamente digitais, como um jogo de video game e assim por diante. A avalanche de imagens é tão intensa neste quanto nos outros filmes, mas dessa vez é marcada por uma mescla de recursos e uma rapidez vertiginosa.

A primeira cena do filme é assombrosa. Um cenário totalmente artificial é mostrado em ângulos diversos, nos deixando em dúvida sobre sua veracidade, o que nos dá uma noção de como o filme será até o fim. A trilha sonora de Philip Glass está impecável, nos transportando para uma viagem imagética que reflete muito bem o movimento acelerado e forçado dos dias pós-modernos. Assim como nos outros dois filmes nada aqui existe por acaso. As cenas tem uma ordem muito precisa e a música faz um par perfeito.

Todo esse conjunto dá ao Naqoyqatsi uma aura meio abstrata, uma vez que não estamos vendo apenas paisagens e figuras humanas, vemos também, graças à intervenção da tecnologia, a projeção de diversos conceitos, sob as mais variadas formas. De repente isso se mescla com técnicas usadas na nossa atual medicina. Em outro momento viajamos pelas expressões faciais de vencedores de provas olímpicas, celebridades e pessoas comuns, em câmera ultralenta, revelando elementos que o olho em geral deixa escapar.
Vaidade, busca pela perfeição do corpo, a postura dos militares, as diversas bandeiras e ideologias que vivem, convivem e combatem. Uma guerra, sem dúvida, mas uma guerra bastante sutil, mascarada por tanto progresso, por tantas formas de se impor ou submeter-se sem perder a pose. Vivemos uma guerra que não tem cara de guerra, ainda que destrua a nós mesmos e a todos ao nosso redor, ainda assim não parece guerra. O aquecimento global, as guerras no oriente médio, a destruição ambiental, tudo isso pode muito bem ser suportado uma vez que temos o conforto da tecnologia, das sofisticações do mundo pós-moderno.
Lutamos o tempo todo para manter a pose apesar da desintegração ser norma. Nos focamos no prazer advindo de tudo isso pra que a vida não seja desperdiçada com preocupações muito profundas. Então o tempo vai passando, o homem destrói e destrói-se, sempre envolto em elegância. Fala apaixonadamente sobre o fim do mundo e em seguida assiste a seus filmes prediletos na tv a cabo. Presencia uma injustiça, muda a música de seu i-pod e prossegue seu caminho, sem jamais perder a pose: Naqoyqatsi.

sexta-feira, 13 de julho de 2007
Envelhecendo

É muito comum de se ouvir que as crianças hoje em dia estão mais desenvolvidas do que antigamente. E é verdade. Pesquisas tem mostrado que as crianças deste século tem desenvolvido muitíssimo mais em termos intelectuais do que as de outrora. Isso parece ter algo a ver com essa história de Era da Informação.
A velocidade com que somos atingidos com conhecimentos e notícias, somado ao nosso ritmo de vida, seja quanto a estudos, trabalho, internet etc, mal nos dá tempo de refletir a respeito de qualquer coisa. Assim, aprendemos muito em pouco tempo, embora o saber real, aquele que se adquire com reflexão, através de pausas pra pensar e produzir pensamento, esse tem se tornado cada vez mais raro.

Nas crianças isso já tem esse bizarro efeito "amadurecedor". Elas são consequentemente mais espertas, embora anuladas quanto á experiências de vida, que de forma alguma podem ser adquiridas por aquilo que não nos toca, como este mundinho virtual, por exemplo, ou mesmo aqueles das lan houses, onde os pais tem despejado seus filhos. Video games, televisão, lan houses, diversão virtual e segura. Experiência zero. Conhecimento mil. Espertos sim. Sábios? De jeito nenhum.
Se as crianças já estão envelhecendo mais cedo e ainda assim crescendo vazias, imagine os próximos velhos, aqueles que estamos para nos tornar? Sim, é triste mas é verdade. Esse ritmo acelerado de vida também nos tem envelhecido mais rápido. Não é só com as crianças é conosco também. E isso ilustra muito bem o que sempre considerei uma máxima, o fato de que maturidade e velhice não são necessáriamente conceitos interdependentes, assim como conhecimento não é sinônimo de sabedoria. Consequentemente, crescem crianças espertas e vazias, tornando-se adultos envelhecidos e frustrados pelo buraco da ausência de experiência. Seja bem vindo á pós-modernidade, hiper-modernidade, agoridade, chame como quiser. A consequência continuará sendo a mesma e já estamos sentindo na pele.
E quanto a mim? Tenho minha cota de experiências, pois valorizo isso mais do que tudo e principalmente mais do que o conhecimento. Troco mil vezes a melhor página do melhor livro por algo que me toque de verdade, embora acabe que a experiência me leve até esta mesma página. No caso o conhecimento acaba sendo um fruto disso e não o contrário. Já reparou que tem certos livros que só entendemos de verdade depois que passamos por determinada experiência na vida? Pois é por aí. Isso já me levou a radicalismos contra a internet, o que também me foi muito útil, uma vez que ampliou o meu tempo, aumentando as minhas horas de leitura e escritura. Acaba que radicalismos não dão muito certo. Mas já sei como sou. Primeiro defendo um lado do extremo, condeno a internet ao inferno. Depois me afundo dentro dela até estar sufocado em merda virtual. Então chego num tipo de equilíbrio, este que acabo de atingir agora, desde que comecei este blog.
Quem me dera esse equilíbrio fosse algo como um nirvana, um tipo de estado zen que me fizesse superar meus defeitos e os defeitos de nossa era. Eu seria um buda agora ou algo similar. Mas infelizmente não alcancei tal estado de espírito. Primeiro porque não passo de um ser humano, segundo porque não acredito em metas ou finais, o que torna esta busca por equilíbrio entre conhecer e saber algo infinito, sem recompensa no final, embora com direito á pequenas sobremesas no caminho. Vou envelhecendo. Isso sim é um fato consumado e que terá um fim, a qualquer dia, a qualquer momento, no dia de meu último dia.
A diferença entre um velho sábio e um velho vazio é a seguinte. O primeiro não para de aprender nunca. Respeita suas próximas limitações, se fecha pra determinadas coisas mas só para poder continuar a se expandir em outras áreas, mais importantes no momento. Já o segundo se cerca de preconceitos e vive para sempre preso em sua ilusão de mundo perfeito, daquele passado dourado que jamais voltará. Provavelmente os dois se tornarão rabugentos, repetirão informações várias vezes, terão manias e tiques adquiridos com o hábito, mas em essência a diferença é brutal. O primeiro sabe que está crescendo e aproveita isso enquanto pode. O segundo tenta impedir esse processo. O medo da dor o leva ao medo da experiência, então ele se fecha.
Gostaria de ser um velho sábio, desde hoje. Um que não pare de aprender nunca, apesar das limitações. Que não pare de se expandir e se encantar, apesar dos hábitos repetitivos. Que não pare de viver a vida real com intensidade, apesar da internet. Que de algum modo jamais faleça, apesar da morte. Aprender ao máximo, de tudo um pouco, principalmente do que me falta. Cada dia um dia, cada instante um eu, ainda que carregando o mesmo nome e talvez a mesma barbicha tôsca. Envelhecendo... Fazer o que?
quarta-feira, 11 de julho de 2007
Labirintar


Labirintar foi a primeira coisa que me veio em mente. Era um verbo muito interessante, um dos meus favoritos, confesso. Já estava praticamente certo de que seria assim. Até uma pesquisa no google, onde acabei me deparando com um outro blog de mesmo nome: Labirintar. Na descrição inicial estava:
LABIRINTAR
Labirintar é estar convicto em linha reta, mas mudar de idéia a cada esquina. É achar que sabe por onde está indo, mas ver que não conhece o caminho. É buscar a saída e não sair do lugar. É se perder, às vezes se achar. É andar sem bússola, sem mapa. É buscar atalhos, é deixar pistas. É mudar de rua incansavelmente. É mudar de idéia e voltar. É criar coragem para escolher novos caminhos. É transformar campos limpos em labirintos e se perder dentro deles.
Sim, nossas concepções são similares. Principalmente a última frase dessa definição: Transformar campos limpos em labirintos para neles se perder. Claro que me interessei pelo blog desta escritora, que assina Sussy Michelly. Resolvi ler tudinho, desde a criação do blog até agora.

Fiquei pasmo com o quanto a moça escreve bem e me apaixonei pelo blog!Bem, isso explica o porquê disso tudo. O porquê deste post, o porquê do link para o site dela lá embaixo junto com minhas recomendações, o porquê da mudança do nome de volta para o original, meu Labirinto em Cativeiro. Leiam isto, leiam labirintar!
Salve o Caos!

terça-feira, 10 de julho de 2007
Para onde estão indo as lacunas?

“Preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos vazios.”
Ana Cristina Cesar
Num discurso qualquer, não fazemos apenas a escolha do recorte daquilo que queremos expressar, mas também escolhemos as lacunas, buracos que quem irá preencher será o próprio receptor, através de sua imaginação e inteligência.
Recortamos de uma determinada área de conhecimento aquilo que achamos mais importante, seja para escrever um ensaio ou mesmo pra expor tal assunto á alguém. Mas há algo que jamais pode ser desconsiderado, que é justamente o receptor da mensagem. Tudo depende da imagem que tenho dele em minha mente. Por exemplo, em programas como Fantástico, podemos perceber que a Globo tenta universalizar ao máximo suas reportagens, de modo que ás vezes sentimos nossa inteligência subestimada ou mesmo insultada. Isso acontece justamente devido a essa tentativa de generalização do discurso “global”, que na maioria das vezes trata o telespectador como criança, visto que praticamente não deixa brechas para que possamos preencher com nossas próprias idéias, nossa imaginação.
Outro exemplo disso está no discurso explícito nos filmes de terror atuais, que em sua grande maioria, além de apresentar uma estrutura de roteiro completamente padronizada e clichê, ainda por cima apresenta seus monstros e assombrações por meio de recursos de computação gráfica e alta tecnologia audiovisual. Ao mostrar demais seus horrores, estes filmes limitam a imaginação de quem os assiste, pois, assim como o Fantástico, não deixa espaço pra que a mente de quem assiste possa imaginar e até mesmo (re)inventar o monstro em questão. O mesmo não acontece em relação á bons filmes desse gênero, onde muitas vezes o monstro nem sequer aparece, mas fica implícito (ver “Os outros” e “Bruxa de Blair”, por exemplo).

Tenho percebido que essa massificação do discurso sem lacunas, que tem permeado todas as áreas da mídia, das artes, enfim, da semiologia em geral, tem deixado o público mal acostumado. Nisso estou falando de música, cinema, literatura, quadrinhos, televisão e entre outras coisas. Quando uma pessoa vai á locadora e pede que o balconista lhe indique um filme, geralmente ela pede assim: “Quero um filme bom, de qualquer gênero, mas que seja excelente”. Se eu, como balconista, lhe indicar “Gilda”, que é um filme noir fantástico em todos os sentidos, então o cliente dará a provável seguinte resposta: “Esse não quero, pois é muito velho e é preto e branco”. Se então lhe oferecer algo como “A liberdade azul”, que é em cores e bem mais atual, a pessoa me dirá: “Esse é francês? Então não quero. Detesto filmes nacionais e estrangeiros!”.
Note que (e isso tudo estou falando por experiência própria como balconista) até agora, este cliente, que representa a grande maioria, quer um filme bom, mas que: a)não seja antigo; b)não seja preto e branco; c)não pode ser nem nacional, nem estrangeiro (e com estrangeiro querem dizer: qualquer coisa que não seja cinema de Hollywood). Se mesmo assim, consigo achar um filme que seja colorido, atual (do ano atual) e americano que seja de fato bom (roteiro criativo, atores legais, diretor dos bons etc), tal como “Efeito Borboleta”, então este cliente levará o filme pra casa, mas voltará reclamando que não gostou, dizendo: “Achei ruim, pois o filme é muito confuso”. Assim, podemos acrescentar mais um tópico ao critério do cliente padrão de uma locadora nos dias de hoje para um filme excelente:
d)o roteiro precisa ser convencional senão não presta.
Tudo bem, gosto é gosto. Só estou dizendo tudo isso pra justificar o que acabo de afirmar sobre um público mal acostumado. Tudo tem sido tão mastigado e uniformizado, que quando algo foge a esse padrão, deixando lacunas para que a pessoa pense ou imagine por si mesma, ela simplesmente ficará revoltada com a diferença e retornará á sua busca pela mesmice de antes.
Usei o exemplo da locadora por ser algo mais próximo da minha realidade. Mas para perceber isso nas outras áreas é muito fácil. Basta perguntar nas livrarias, observar as comunidades no Orkut, ligar a TV e o rádio. O senso crítico das massas está a cada dia mais anestesiado.

Para finalizar, só queria dizer que não devemos nos assustar ante aquilo que apresenta uma quase completa predominância das lacunas. A poesia, por exemplo, independente da área semiológica onde esteja inserida, simplesmente precisa disso pra que seja poesia. Caso contrário cairá no abismo da língua padrão, que apesar de necessário não passa de nosso cotidiano arroz com feijão. A poesia, bem como qualquer coisa que se denomine arte, tem a obrigação de fugir disso, sendo em algum nível inovadora e criativa, conseqüentemente nos deixando mil brechas para o pensamento.
Se o mundo acabar padronizando todos os discursos e isso for inevitável (claro que esperamos e faremos de tudo pra que não seja, certo?) que ao menos a poesia escape á regra, ou não teremos espaço algum pra respirar. Nenhuma lacuninha que seja.

sexta-feira, 6 de julho de 2007
Blogueiros

O que é interessante num blog? O espaço. A mídia de um modo geral é fechada, enquanto o blog é uma mídia aberta, limitada somente pela tecnologia, ou seja, se você tem acesso a um computador conectado você lê, senão nem fica sabendo.
O fato de ser uma mídia aberta nos permite mil possibilidades. Podemos fazer diários virtuais, albuns de fotos, divulgar nossos videos, nossas idéias (das mais geniais ás mais imbecís), nossos poemas, links favoritos, textos nossos e de outros autores, enfim, uma espécie de revista virtual onde somos o editor, o escritor, o fotógrafo e ás vezes nosso único leitor. A liberdade para tanto é deliciosa. Vemos o espaço virtual em branco e nos colocamos a preenchê-lo.
Assim são os blogueiros. Alguns são mais assíduos, outros escrevem bem de vez em quando, enquanto uns, como eu, são o meio termo. Escrevo pouco e coloco poucas coisas, mas minha atualização é garantidamente mensal. Pra mim escrevem pouco os que escrevem duas vezes por ano e olhe lá (mas também tá valendo, o que importa é escrever).
O Blog é sem a menor dúvida um novo gênero textual. Ou melhor: hipertextual. Pode vir mesclado de imagens, videos, sons e links que nos levam a mergulhar em outros textos. A liberdade que ele nos permite é tanta que ás vezes escrevemos uma simples frase como: "Hoje estou com dor de cabeça" e pronto, está postado. Noutros dias o senso de profissionalismo é maior. É quando decidimos por escrever de maneira mais elaborada, editando e reeditando quantas vezes forem necessárias, até nos sentirmos á vontade com o que foi escrito.
Dentre os elementos que unem os blogueiros está o blog em si. Pra quem gosta de blogs eles tem o seu valor. Pro restante das pessoas eles literalmente não existem. Quem não se interessa não procura ler nem as letras grandes, nem mesmo as imagens, não léem nada.
Já os blogueiros, esses sabem que os blogs existem, pensam a respeito disso sempre pois gastam preciosas horas de seu tempo, ainda que ocasionalmente, a se dedicarem a seus blogs. Então acaba que boa porcentagem dos leitores de blogs são quase que necessariamente também blogueiros.
A influência do movimento blogueiro tem crescido de maneira impressionante. Até mesmo personalidades políticas e celebridades tem criado e investido em seus blogs pessoais. Algumas cooperativas tem sido criadas, espécies de irmandades que servem não só como divulgadoras mas também criadoras de movimentos e eventos através da internet. Atos do tipo: mandar enxurradas de e-mails a um determinado senador pra cobrar alguma coisa, tem se popularizado cada vez mais, muitas vezes com resultados mais que interessantes.
A medida que novos amigos forem montando seus blogs, usarei os links lá embaixo pra divulga-los. É necessário que se leiam, que se divulguem, que se unam.




